O lançamento do guia “Internet com Responsa Só para Adolescentes: Proteção no Uso da Internet”, realizado pelo CERT.br (Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil), marca um passo relevante na promoção do uso seguro, crítico e equilibrado da internet entre os jovens brasileiros. O material, apresentado durante o 10º Simpósio de Crianças e Adolescentes na Internet, em São Paulo, foi construído a partir de escutas com adolescentes de 9 a 17 anos de todas as regiões do país, garantindo que as orientações reflitam as vivências e necessidades reais desse público.
O guia, disponível gratuitamente na internet, aborda temas fundamentais como privacidade, desinformação, saúde mental, inteligência artificial e cyberbullying, oferecendo dicas práticas para que os adolescentes desenvolvam autonomia na navegação e se protejam dos riscos digitais. Segundo Mariana Venâncio, advogada do NIC.br, o projeto representa um avanço na conscientização e proteção dos jovens no ambiente digital, servindo como ferramenta educativa para promover uma relação responsável com as tecnologias.
A construção do material chamou a atenção por incorporar diretamente as vozes e demandas dos próprios adolescentes. Harika Merisse Maia, diretora de Projetos da Rede Conhecimento Social, ressaltou a importância desse diálogo: usualmente, as crianças e adolescentes são poucos ouvidos em processos de elaboração de políticas e materiais educativos. Dessa vez, a escuta trouxe percepções valiosas, como o fato de que crianças de 9 a 11 anos costumam usar o celular dos pais para jogar offline e assistir vídeos, enquanto adolescentes de 12 a 17 anos já realizam atividades mais complexas, como compras, acesso a redes sociais e até jogos de azar — este último, um exemplo de conteúdo inadequado ao qual estão mais expostos.
Durante as conversas, os adolescentes apresentaram recomendações concretas para um ambiente digital mais seguro. Entre elas, destacam-se o estabelecimento de limites de tempo para o uso da internet, o acompanhamento e orientação proporcionais à faixa etária, a definição de regras de forma dialogada, a apresentação de exemplos reais de uso inadequado e suas consequências, a criação de espaços seguros para pedir ajuda e a promoção de atividades off-line. Curiosamente, os próprios jovens reconheceram a necessidade de limites e monitoramento, desde que respeitando sua privacidade — é a diferença entre acompanhamento positivo e invasão.
O material não se restringe a orientar jovens e adolescentes. Ele também reforça a importância da mediação parental, ou seja, do envolvimento dos responsáveis no processo de educação digital, incentivando o diálogo aberto e a construção conjunta de acordos sobre o uso de telas e redes sociais. O uso de ferramentas de controle parental e de filtros de conteúdo é recomendado, mas sempre associado à conversa, para que o adolescente não perceba o monitoramento como controle ou violação de privacidade.
O lançamento deste guia ocorre em um momento em que o acesso à internet entre crianças e adolescentes brasileiros é quase universal. A maior parte desse grupo já utiliza o celular como dispositivo principal para acessar a rede, sendo os jogos digitais a principal porta de entrada para as redes sociais e, por consequência, para outros riscos do ambiente online. O fenômeno do acesso precoce e intensivo preocupa especialistas, educadores e famílias, que buscam equilibrar as oportunidades e perigos oferecidos pelo mundo digital.
Além de conscientizar os adolescentes, o guia serve como subsídio para pais, educadores e outros atores sociais engajados na proteção dos direitos infanto-juvenis na internet. Ele se soma a outras iniciativas recentes, como o lançamento de plataformas governamentais com orientações técnicas para monitoramento e denúncia de conteúdos inapropriados, e cartilhas voltadas a influenciadores digitais e comunicadores, buscando ampliar a rede de proteção para crianças e adolescentes no ambiente online.
Em resumo, o “Internet com Responsa Só para Adolescentes” é uma resposta prática e democrática aos desafios enfrentados pelos jovens brasileiros na internet, fruto do diálogo com aqueles que mais conhecem os riscos e oportunidades do ambiente digital. O material destaca o valor da escuta, do diálogo e da corresponsabilidade entre adolescentes, famílias, escolas e sociedade civil na construção de uma internet mais segura para todos.
