O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, afirmou nesta terça-feira que as investigações conduzidas pela PF não apontam qualquer conexão entre as facções criminosas brasileiras e grupos considerados terroristas por alguns países. Segundo Rodrigues, não há comprovação concreta de que esses dois fenômenos — o crime organizado no Brasil e o terrorismo internacional — estejam relacionados, apesar de menções eventuais ou suposições que possam surgir. Ele destacou que tais ligações, quando investigadas profundamente, não se confirmam, e que usos dessa narrativa podem corresponder a pressões geopolíticas externas, nas quais a Polícia Federal não se envolve. Essas declarações foram feitas durante sessão da comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Senado, que investiga a atuação do crime organizado no país, em resposta a um questionamento do senador Hamilton Mourão. Mourão citou a suposta presença de organizações terroristas na região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, local continuamente apontado como um ponto de atenção por autoridades internacionais.
Na Tríplice Fronteira, os Estados Unidos mantêm uma posição firme contra o Hezbollah, organização político-militar libanesa que, embora não seja classificada como terrorista pela Organização das Nações Unidas (ONU), é considerada como tal por Washington e seus aliados, como Reino Unido, Israel e Alemanha. Em maio deste ano, o governo dos EUA ofereceu uma recompensa de 10 milhões de dólares por informações que permitirão interromper os mecanismos financeiros do Hezbollah na região, acusando o grupo de atuar por meio do tráfico de drogas, contrabando e outros crimes. O Paraguai, que mantém relações próximas com os governos dos EUA e de Israel, anunciou em agosto a instalação de um escritório do FBI para apoiar o combate a essa organização na região. O Hezbollah, fundado em 1982 para resistir à invasão israelense ao Líbano, atua atualmente também como partido político naquele país do Oriente Médio.
Além desses aspectos, especialistas em relações internacionais têm alertado que a utilização da categorização de “terrorismo” ou “narcoterrorismo” tem sido uma estratégia empregada por os Estados Unidos para justificar intervenções em assuntos internos de diversos países, inclusive mencionando que o Brasil poderia ser alvo dessa abordagem. No contexto legislativo doméstico, há debate sobre a melhor forma de lidar com o crime organizado no Brasil, incluindo a controvérsia sobre a classificação de facções criminosas como organizações terroristas, tema que tem gerado divergências entre governo e oposição no Congresso. Recentemente, houve movimento para retirar da Lei Antiterrorismo tipos penais que poderiam classificar integrantes de facções criminosas como terroristas, refletindo uma cautela para evitar ampliar a definição de terrorismo no país sem evidências concretas que justifiquem tal medida.
