Em Aracaju, o terreiro de candomblé Ìlé Àṣé Ìyá Ọṣún foi invadido e depredado, gerando grande comoção na comunidade local. O templo teve diversos objetos materiais furtados, como geladeira, fogão e máquina de costura, além de itens sagrados destruídos e profanados, configurando um ato que vai além da mera violência física, caracterizando um crime de racismo religioso. Esse episódio representa uma das manifestações mais recentes da intolerância e da discriminação sofridas pelas religiões afro-brasileiras no país.
A ocorrência em Aracaju faz parte de um quadro mais amplo revelado pela pesquisa “Respeite o meu terreiro”, realizada em 2025 com líderes de 511 terreiros. De acordo com o estudo, 80% dessas comunidades religiosas foram vítimas de racismo religioso nos últimos dois anos, enfrentando agressões verbais, xingamentos, ataques e abordagens policiais discriminatórias. Além disso, 76% das casas foram alvo de diversos tipos de violência física, sendo que 74% sofreram ameaças, depredações ou destruições, complicando o exercício livre da fé e colocando em risco a preservação cultural e espiritual desses povos.
O racismo religioso não se limita ao espaço físico: 52% dos terreiros relataram sofrer assédios ou ataques em ambientes digitais, como nas redes sociais, onde muitos divulgam suas atividades cotidianas. Apesar da gravidade e da frequência desses ataques, menos de 30% buscaram apoio formal junto às autoridades policiais, ressaltando uma ausência de proteção efetiva e a sensação de vulnerabilidade das comunidades.
Além do caso de Aracaju, outros episódios simbolizam a discriminação cotidiana, como a intimidação policial a uma escola pública de São Paulo em novembro de 2025, motivada pela simples representação da orixá Iansã em um desenho infantil, evidenciando o preconceito arraigado contra manifestações culturais e religiosas afro-brasileiras.
Esses dados e relatos foram apresentados em uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) na Suíça, organizados pela Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro), o terreiro Ilê Omolu Oxum e o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. Mãe Nilce, responsável pela pesquisa, destacou que líderes espirituais e fiéis continuam perseguidos, com terreiros invadidos e destruídos e até assassinatos motivados exclusivamente por sua fé não cristã. Ela enfatizou a necessidade urgente de políticas públicas eficazes e de conscientização social para garantir respeito e proteção às religiões de matriz africana no Brasil. O racismo religioso é crime previsto em lei, mas sua persistência demonstra a distância entre a norma jurídica e a realidade social, exigindo maior engajamento das instituições para a promoção da liberdade religiosa e dos direitos humanos.
