Morreu na madrugada desta sexta-feira, aos 98 anos, Carmen Oliveira da Silva, conhecida como Mãe Carmen, ialorixá do Terreiro de Gantois, em Salvador. Contadora aposentada do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, ela comandava o Candomblé do Ilé Iá Omi Axé Iamaxé desde 2002, um dos terreiros mais antigos e tradicionais da religião no Brasil, fundado em 1849 pela africana Maria Júlia da Conceição Nazareth.
Filha caçula de Maria Escolástica da Conceição Nazareth, a lendária Mãe Menininha do Gantois, Carmen nasceu em 29 de dezembro de 1926, na própria Casa do Candomblé, e foi iniciada aos 7 anos nos saberes ancestrais. Dedicou toda a vida à espiritualidade, atuando inicialmente sob a orientação da mãe e, em seguida, ao lado da irmã mais velha, Mãe Cleusa de Nanã, que liderou o terreiro entre 1986 e 1997. Sexta ialorixá na linhagem matriarcal hereditária do Gantois, ela assumiu a liderança com amor, coragem e responsabilidade, zelando pela fé, memória e identidade da comunidade.
Em nota divulgada nas redes sociais, a Associação de São Jorge Ebé Oxóssi a descreveu como guardiã da ancestralidade e herdeira de uma linhagem que pavimentou a história do Candomblé na Bahia e no Brasil. Ser Ìyáloriṣa em sua presença significava cuidar, proteger, orientar e sustentar o axé com dignidade, firmeza e sabedoria, preservando os costumes iorubás em um terreiro tombado como patrimônio histórico pelo IPHAN em 2002.
O Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania emitiu nota de pesar, solidarizando-se com a comunidade do Gantois e destacando que sua partida representa uma grande perda para o povo de santo, para a Bahia e para o país. Sua vida deixa um legado de sabedoria, firmeza espiritual e compromisso com a ancestralidade.
Mãe Carmen, devota de Oxalá – seu orixá de cabeça –, faleceu em uma sexta-feira, dia consagrado à divindade. Ela deixa duas filhas, três netos e quatro bisnetos, expressão viva da continuidade da memória e do futuro tecidos a partir de seu legado. Nos despedimos de sua presença física, mas seu axé permanece, com ensinamentos vivos e missão inscrita na história como fonte de força, amor e sabedoria para as gerações futuras.
O velório ocorre na tarde desta sexta-feira no Terreiro do Gantois, onde receberá homenagens até o sábado, dia 27, quando será enterrada em Salvador.
