Caminhos da Reportagem celebra centenário da Corrida de São Silvestre

Uma das provas mais icônicas do Brasil chega à centésima edição: a São Silvestre. Criada em 1925 pelo empresário e jornalista Cásper Líbero, inspirada em corridas de rua que ele conheceu em Paris, a competição teve na sua primeira edição 48 corredores largando do Parque Trianon, na Avenida Paulista, às 23h40, percorrendo 8,8 mil metros pelas ruas de São Paulo. O primeiro vencedor foi Alfredo Gomes, neto de escravizados e o primeiro atleta brasileiro negro a participar dos Jogos Olímpicos, em uma prova que, nas edições iniciais, reunia apenas competidores nacionais.

A São Silvestre se consolidou como símbolo de celebração e pertencimento nas ruas da capital paulista, coroando atletas memoráveis e atraindo milhares de corredores profissionais e amadores a cada virada do ano. Para marcar o centenário, o programa Caminhos da Reportagem apresenta o episódio especial 100 vezes São Silvestre, que vai ao ar excepcionalmente às 22h30 desta segunda-feira na TV Brasil, trazendo grandes nomes que contam a história do evento e celebram sua importância para a cultura esportiva do país.

O jornalista e diretor-executivo da São Silvestre, Erick Castelhero, destaca que a ideia original era ligar a última noite do ano ao Réveillon, chamando para o novo ciclo. Talvez Cásper não imaginasse que a prova chegaria ao que é hoje, um dos eventos esportivos mais prestigiados do Brasil e da América Latina.

Em 1945, corredores estrangeiros começaram a participar, e o Brasil ficou décadas sem vencer. O jejum foi encerrado em 1980, com a histórica vitória de José João da Silva, atleta do São Paulo Futebol Clube, que assumiu a liderança nos últimos metros. Ele relembra o impacto: ali eu não tinha ideia do tamanho da vitória. Parou o país, foi uma Copa do Mundo. Essa vitória foi um marco grande. Cinco anos depois, em 1985, ele venceu novamente, tornando-se um dos poucos brasileiros a conquistar o bicampeonato.

O crescimento e o nível competitivo atraíram atletas de elite do mundo todo. A mexicana María del Carmen Díaz, tricampeã em 1989, 1990 e 1992, treinava em uma região de vulcões perto de Toluca e superou o calor de 30 graus na primeira São Silvestre disputada à tarde. Ela rememora com carinho o apoio do público brasileiro: eu realmente admiro o povo daqui porque fui mais reconhecida em outro país do que no México. Sinto orgulho porque há corredoras, corredores e crianças que me dizem que, por minha causa, praticam esportes e gostam de corridas.

Foi apenas na 51ª edição que a prova feminina foi incluída. A maior vencedora é a portuguesa Rosa Mota, com seis títulos consecutivos, inspirando gerações. A brasileira Maria Zeferina Baldaia, que assistiu às vitórias de Rosa na TV quando criança, decidiu seguir o mesmo caminho. Treinando nos canaviais de Sertãozinho, no interior de São Paulo, ela correu 15 anos descalça por falta de condições para comprar tênis, mas persistiu com o objetivo de ajudar a família. Sua vitória em 2001 mudou a vida dos seus e fortaleceu o esporte na cidade, que hoje tem um centro olímpico com seu nome. E hoje eu poder estar fazendo o que ainda faço, que é correr e poder treinar e ver as crianças, jovens e adultos, isso não tem preço.

Ao longo de um século, a São Silvestre virou fenômeno popular. Milhares de amadores de todo o país se encontram na Avenida Paulista para celebrar a virada, a superação e a paixão por correr. Entre eles, destaca-se Ana Garcez, conhecida como “Ana Animal”, irreverente ícone do atletismo que já morou nas ruas, mas encontrou na corrida perseverança e alegria. Se não fosse a corrida, hoje eu não estava falando aqui com você.

Para o centenário, esta será a maior edição da história, com cerca de 55 mil participantes nas provas feminina, masculina, para pessoas com deficiência e a São Silvestrinha, que reúne duas mil crianças e adolescentes, formando uma nova geração de apaixonados por corrida. Atletas brasileiros que vencem a prova viram heróis populares, super-heróis humanos com quem o público se identifica, como resume o diretor da corrida.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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