EUA recuam em caso contra Maduro e abandonam alegação de que “Cartel de los Soles” existia

Antes de sequestrar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, os Estados Unidos haviam classificado um termo usado como gíria para corrupção ligada ao tráfico de drogas como um cartel terrorista, acusando Maduro de liderá-lo. Surpreendentemente, a nova acusação omite essa afirmação.

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O Departamento de Justiça dos EUA recuou discretamente em uma de suas alegações mais controversas contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro, abandonando a afirmação de que ele liderava um cartel de drogas formal conhecido como Cartel de los Soles (ou Cartel dos Sóis).

Em uma nova acusação revelada em 3 de janeiro, no mesmo dia em que forças norte-americanas atacaram Caracas e sequestraram Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, os promotores retiraram a linguagem que descrevia o Cartel de los Soles como uma organização criminosa estruturada.

Em vez disso, o documento reformula o termo como um sistema de clientelismo e uma cultura de corrupção ligada ao dinheiro do narcotráfico dentro da elite militar e política da Venezuela, segundo o texto da acusação contra Maduro.

Essa mudança representa uma reviravolta significativa em relação à posição adotada pelo governo Trump.

Em 2020, os promotores norte-americanos haviam acusado Maduro de chefiar o Cartel de los Soles, retratando-o como uma poderosa organização de tráfico de drogas. Essa linguagem foi repetida posteriormente pelo Departamento do Tesouro dos EUA, em julho de 2025, quando o grupo foi designado oficialmente como organização terrorista, e novamente em novembro, quando o secretário de Estado Marco Rubio confirmou uma designação semelhante.

“Não é um grupo”

De acordo com a nova acusação, o termo Cartel de los Soles refere-se a oficiais no topo desse sistema, sendo o nome derivado do insígnia de sol usada por oficiais de alta patente das forças armadas venezuelanas.

No entanto, especialistas em crime organizado latino-americano há muito argumentam que o termo “Cartel de los Soles” não se refere a um cartel real. Na verdade, trata-se de uma gíria venezuelana, usada desde a década de 1990 para descrever oficiais acusados de corrupção e de envolvimento com o tráfico de drogas.

“A ideia de que o Cartel de los Soles é uma organização terrorista unificada é, em grande parte, uma construção ocidental. Ela circula não porque reflita uma realidade empírica, mas porque serve a uma utilidade geopolítica — fornece uma justificativa pronta para a intervenção”, afirmou Jenaro Abraham, cientista político e professor de política latino-americana na Universidade de Gonzaga, em entrevista recente ao TRT World.

A nova acusação dos EUA parece admitir esse ponto.

Enquanto o documento original mencionava o Cartel de los Soles mais de 30 vezes e chamava Maduro de seu líder, a nova versão cita o termo apenas duas vezes.

Em vez disso, o texto afirma que os réus teriam transformado a Venezuela em um “narcostado”, usando o poder do governo para proteger e facilitar os embarques massivos de cocaína com destino aos Estados Unidos.

“Eles supostamente colaboraram com organizações terroristas estrangeiras designadas (FTOs), incluindo as FARC (e seus sucessores), ELN, Cartel de Sinaloa, Zetas/CDN e Tren de Aragua, oferecendo proteção e apoio em troca de lucros”, diz a acusação.

O documento também declara que Maduro, assim como seu antecessor Hugo Chávez, participou e protegeu um sistema de clientelismo e corrupção institucionalizada.

Maduro nega todas as acusações.

Fonte: TRT World

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