Ação de Trump nas Américas favorece Putin na Ucrânia, diz historiador

A ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e a escalada retórica do presidente Donald Trump contra outros países reacenderam temores de descontrole na ordem internacional e abriram espaço para movimentos mais agressivos de outras potências, como a Rússia. A combinação entre a invasão de um país latino-americano, as ameaças de anexação de territórios e a relativização aberta do direito internacional alimenta, segundo analistas, um ambiente em que a lógica do “cada um por si” passa a orientar o comportamento das grandes potências.

Na América do Sul, o choque inicial veio com o ataque de grande escala dos EUA à Venezuela, em 3 de janeiro, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e em dezenas de mortos, entre militares, civis e assessores próximos do governo. A operação, planejada há meses, envolveu bombardeios a instalações estratégicas em Caracas e o emprego de forças especiais para localizar e prender o líder venezuelano em seu refúgio. Tropas de elite norte-americanas treinaram previamente em uma réplica do esconderijo de Maduro, enquanto a CIA mantinha agentes em solo venezuelano desde o ano anterior, monitorando a rotina do presidente e de seu círculo mais próximo. A ação consolidou um movimento de endurecimento da política externa de Washington, que já vinha aumentando a presença naval no Caribe sob o argumento de combate ao narcotráfico e elevando a pressão política e econômica sobre Caracas.

A justificativa oficial da Casa Branca foi enquadrar a operação como etapa de uma campanha de “pressão máxima” contra um governo acusado de narcotráfico, autoritarismo e ameaça à estabilidade regional. Para governos adversários, setores da academia e organizações multilaterais, porém, o que se viu foi um ato de guerra contra um Estado soberano, realizado sem aval do Conselho de Segurança da ONU e em afronta direta ao direito internacional. Especialistas em relações internacionais apontam que, ao capturar um chefe de Estado em exercício e bombardear alvos em uma capital latino-americana, os EUA criam um precedente que pode ser usado por outras potências para justificar intervenções semelhantes em nome de sua própria segurança.

A China, maior parceira comercial do Brasil e grande compradora do petróleo venezuelano, reagiu com preocupação explícita, vendo na ofensiva americana um sinal de que Washington está disposta a recorrer à força para reordenar sua zona de influência no hemisfério ocidental. Em Pequim e em outras capitais, diplomatas e analistas discutem os riscos de uma possível “normalização” do uso unilateral da força: se os Estados Unidos se arrogam o direito de intervir militarmente para disciplinar governos considerados hostis em sua vizinhança, outras potências, em futuras crises, podem alegar a mesma lógica para agir em seus respectivos entornos estratégicos. Essa leitura ajuda a explicar o temor de que a operação contra a Venezuela sirva de referência para ações mais musculares da China em áreas de disputa na Ásia ou em pontos sensíveis onde seus interesses sejam confrontados.

No plano discursivo, Trump deu sequência ao endurecimento com novas ameaças, ampliando o raio de tensão. Poucas horas após o bombardeio à Venezuela, o presidente norte-americano passou a falar publicamente em “tomar” a Groenlândia, território semiautônomo vinculado ao Reino da Dinamarca, evocando razões de segurança nacional e a suposta presença de navios russos e chineses no entorno ártico. A declaração provocou reação imediata em Copenhague. A primeira-ministra dinamarquesa afirmou que os Estados Unidos não têm qualquer direito de anexar partes do reino, classificou a ideia como sem sentido e pediu o fim das ameaças contra um aliado histórico. Do lado groenlandês, o chefe de governo Jens Frederik Nielsen foi ainda mais direto, chamando a proposta de inaceitável e criticando o uso de seu país como peça de retórica de superpotência.

Ao mesmo tempo, Trump elevou o tom contra a Colômbia, governada por Gustavo Petro, um presidente de esquerda e crítico da política norte-americana para a região. Em declarações a jornalistas, o líder dos EUA sugeriu que uma ação militar contra o governo colombiano “parece boa” e acusou Petro de conivência com o narcotráfico, descrevendo o país como “doente” e mal administrado. Em resposta, o presidente colombiano rejeitou as acusações, lembrou ter patrimônio modesto e contas abertas ao escrutínio público, e convocou a população a defender as instituições diante de qualquer ato de violência ilegítima. Petro ressaltou que as forças de segurança nacionais não deveriam voltar suas armas contra o povo, mas sim contra eventuais invasores, em referência direta à possibilidade de agressão externa.

Esse clima de confronto verbal se soma à prática concreta de intervenção na Venezuela e alimenta a percepção, entre observadores internacionais, de que a Doutrina Monroe foi reatualizada em chave mais agressiva. Ao reivindicar abertamente um “direito” especial sobre o hemisfério ocidental e sugerir o uso da força como instrumento de política, Washington sinaliza disposição para redesenhar, na prática, fronteiras entre soberania nacional, segurança regional e interesses estratégicos. Para críticos, trata-se de uma guinada imperial voltada a “disciplinar” governos considerados rebeldes e garantir acesso privilegiado a recursos naturais, como o petróleo venezuelano, ao mesmo tempo em que afasta influências de rivais como China, Rússia e Cuba.

Nesse cenário, analistas veem um risco direto de que a postura norte-americana favoreça manobras mais ousadas de Moscou em seu entorno. Com os Estados Unidos politicamente e militarmente absorvidos por operações e crises em países latino-americanos e envolvidos em disputas retóricas com aliados europeus por causa da Groenlândia, abre-se uma janela para que a Rússia tente resolver, a seu modo, o impasse com a Ucrânia. A recente utilização, por Moscou, de mísseis hipersônicos e ataques massivos com drones contra alvos ucranianos é interpretada como sinal de que o Kremlin se sente menos constrangido a calibrar suas ações diante do Ocidente, em um quadro em que a atenção de Washington está fragmentada.

Especialistas em geopolítica alertam que a combinação de ações militares unilaterais, ameaças constantes a países vizinhos e desprezo declarado por tratados e instituições multilaterais contribui para consolidar uma espécie de “estado de exceção permanente” na política internacional. Em vez de normas estáveis, acordos e mecanismos de mediação, ganha espaço a lógica da força bruta e da negociação caso a caso, em que o peso militar e econômico de cada ator passa a valer mais do que qualquer consenso jurídico. A guerra na Ucrânia, a intervenção na Venezuela e as ameaças contra a Groenlândia e a Colômbia passam a ser vistas como diferentes faces de uma mesma transformação: a erosão da ordem construída após a Segunda Guerra e o avanço de um mundo em que os limites de cada potência são testados diretamente no campo de batalha ou na arena da intimidação.

Para países de médio porte e democracias em desenvolvimento, esse ambiente se traduz em vulnerabilidade. Governos que buscam caminhos autônomos de política externa, aproximando-se de múltiplos parceiros, correm o risco de ser enquadrados como peças de disputa entre superpotências. Ao mesmo tempo, a fragilização das instâncias multilaterais, como o Conselho de Segurança da ONU, reduz as alternativas para conter escaladas e construir respostas coletivas a agressões. Sem um freio efetivo às investidas unilaterais, cresce o perigo de que conflitos regionais, como o da Ucrânia, sejam utilizados por diferentes atores como campo de teste de novas armas, doutrinas e táticas, em uma dinâmica que pode escapar ao controle.

Nesse contexto, o alerta de historiadores e pesquisadores é de que o mundo assiste à montagem acelerada de uma nova configuração internacional, marcada por um equilíbrio instável entre potências e por uma competição aberta por influência e recursos estratégicos. A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, a pressão sobre a Groenlândia, as ameaças à Colômbia e o recrudescimento da ofensiva russa contra a Ucrânia são apontados como sintomas de um mesmo processo: a substituição gradual de regras compartilhadas por decisões unilaterais, em que cada país poderoso reivindica seu próprio “direito” de agir onde considera seu quintal ou sua zona de interesse vital.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

Leia mais