Os ministros da área econômica do governo brasileiro celebraram nesta sexta-feira a aprovação, pela União Europeia, do acordo comercial com o Mercosul, após mais de duas décadas de negociações. Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento) destacaram o potencial do tratado para impulsionar o crescimento, ampliar mercados para produtos brasileiros e reposicionar o país no cenário internacional, tanto do ponto de vista econômico quanto geopolítico.
A decisão europeia encerra um impasse de 25 anos e abre caminho para a criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, ao reduzir ou eliminar gradualmente tarifas de importação e exportação entre os dois blocos. O texto aprovado pelos países da União Europeia estabelece regras comuns para o comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios, tema sensível nas discussões com governos e parlamentares europeus. A aprovação foi dada por maioria qualificada dos 27 Estados-membros, após votação em Bruxelas que superou resistências de países como França, Irlanda, Hungria e Polônia, críticos sobretudo aos impactos sobre o setor agrícola local.
Do lado brasileiro, a leitura é de que o acordo representa um marco político e econômico. Em mensagem enviada à imprensa, Fernando Haddad classificou o entendimento entre Mercosul e União Europeia como histórico, não apenas pelo potencial de incremento nas exportações e no fluxo de investimentos, mas também pelo simbolismo em um momento de redesenho das cadeias globais de produção. Para ele, a decisão se insere em uma agenda de reabertura do Brasil ao comércio internacional e de integração a cadeias de valor mais sofisticadas, alinhada ao discurso que o país levou ao G20 sobre uma “reglobalização” mais sustentável e inclusiva.
Simone Tebet, que já vinha defendendo publicamente a importância do tratado, também comemorou o resultado, apontando efeitos diretos na competitividade da economia brasileira. A ministra ressalta que a redução de tarifas tende a baratear insumos e máquinas importadas, a aumentar o acesso de produtos brasileiros ao mercado europeu e a favorecer setores como agronegócio, indústria de transformação e serviços de maior valor agregado. Na avaliação da equipe econômica, o pacto pode contribuir para elevar o nível de investimento, estimular ganhos de produtividade e, no médio prazo, ajudar a sustentar um ciclo de crescimento com inflação controlada.
O contexto político europeu foi determinante para destravar o acordo. Após anos de impasse, a mudança de posição da Itália em relação ao texto negociado — condicionada a salvaguardas para o campo — foi decisiva para garantir o apoio mínimo exigido para a aprovação. Para avançar, a Comissão Europeia precisava do aval de pelo menos 15 países representando 65% da população do bloco. Mesmo com votos contrários de governos preocupados com a concorrência de produtos latino-americanos mais baratos e com padrões ambientais considerados diferentes dos exigidos na Europa, prevaleceu a avaliação de que o acordo fortalece a parceria estratégica entre os dois lados do Atlântico.
O governo brasileiro vê nessa virada um sinal de confiança na relação com o Mercosul e um reforço à narrativa de diálogo e cooperação que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta projetar no exterior. Palácio do Planalto e equipe econômica tratam o acordo como uma vitória do diálogo em um ambiente internacional marcado por tensões comerciais, guerras e disputas tecnológicas. A expectativa é que a assinatura formal do tratado, prevista para ocorrer em breve em encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Paraguai, consolide o gesto político e incremente o capital diplomático do Brasil.
Ainda que a aprovação nos países da União Europeia seja considerada um passo decisivo, o processo não está totalmente concluído. O texto terá de passar pelo crivo do Parlamento Europeu, etapa em que podem ressurgir pressões de setores contrários ao acordo, especialmente ligados à agricultura e à agenda ambiental. Em Bruxelas, discutem-se mecanismos de salvaguarda para proteger produtores europeus em caso de aumento expressivo das importações vindas do Mercosul e instrumentos de monitoramento de compromissos ambientais e trabalhistas assumidos pelas partes.
No Brasil, a leitura predominante entre integrantes do governo é de que o avanço político conquistado nesta sexta-feira muda o patamar da discussão. Ao destravar um projeto negociado há 25 anos, o acordo passa a ser apresentado internamente como peça central da estratégia de desenvolvimento econômico baseada na ampliação de mercados, na transição ecológica e na atração de investimentos. Para Haddad e Tebet, o gesto da União Europeia sinaliza não apenas oportunidades comerciais imediatas, mas a abertura de uma nova fase de cooperação entre Mercosul e União Europeia, em áreas que vão do comércio e da indústria à inovação, infraestrutura e sustentabilidade.
