O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a colocar o Irã no centro das atenções internacionais ao declarar que Washington está pronto para intervir em apoio aos manifestantes que tomam as ruas do país. Em meio a uma onda de protestos que começou com reivindicações econômicas e rapidamente ganhou contornos políticos, o líder norte-americano afirmou que os Estados Unidos poderão “entrar em ação” caso o regime iraniano passe a matar manifestantes. Segundo agências internacionais, mais de 50 pessoas já morreram, enquanto o governo intensifica a repressão e tenta isolar o país do mundo exterior.
Trump tem usado principalmente sua própria rede social para enviar recados diretos a Teerã. Em uma das mensagens mais recentes, ele escreveu que “o Irã está em busca de liberdade, talvez como nunca antes” e garantiu que os Estados Unidos “estão prontos para ajudar”. A fala foi interpretada como um apoio explícito aos protestos e como sinal de que Washington estaria disposto a ir além das declarações, caso a repressão se agrave. Na avaliação de analistas, o presidente norte-americano tenta projetar a imagem de defensor dos direitos dos manifestantes, ao mesmo tempo em que aumenta a pressão sobre um dos principais adversários dos EUA no Oriente Médio.
As manifestações no Irã tiveram início em 28 de dezembro, motivadas principalmente pelo aumento da inflação e pela deterioração das condições de vida da população. O descontentamento com a alta de preços e o desemprego rapidamente se transformou em revolta contra o regime, com gritos dirigidos às lideranças políticas e religiosas do país. Em poucos dias, palavras de ordem contra a corrupção, a falta de liberdade e o controle rígido do Estado sobre a sociedade passaram a dominar as ruas. O movimento, que começou como um protesto econômico, passou a ser uma contestação aberta ao governo e às bases do sistema político iraniano.
Diante da expansão dos protestos, as autoridades iranianas responderam com mão pesada. Organizações de direitos humanos e veículos internacionais relatam o uso de força letal contra manifestantes, prisões em massa e presença ostensiva de forças de segurança em diversas cidades. Ao mesmo tempo, o país enfrenta um apagão de comunicações. Desde ontem, o Irã sofre um corte quase total de acesso à internet, medida atribuída às próprias autoridades como forma de conter a disseminação de vídeos, mensagens e chamadas para novos atos. Telefonemas internacionais também deixaram de completar, e voos foram cancelados, aprofundando o isolamento iraniano em um momento de forte turbulência interna.
A reação oficial em Teerã tenta enquadrar os protestos como resultado direto da intervenção estrangeira. O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, classificou os manifestantes como “vândalos” e acusou-os de agir em nome de Donald Trump. Em discurso transmitido pela mídia estatal, ele afirmou que grupos violentos estariam destruindo patrimônio público para agradar ao presidente dos Estados Unidos. Ao atribuir a revolta popular à influência externa, Khamenei busca deslegitimar as manifestações e sustentar a narrativa de que o país é alvo de uma conspiração internacional liderada por Washington.
As declarações de Trump ampliam o clima de tensão na região. Ao acenar com a possibilidade de “ajuda” e intervenção caso mais mortes sejam registradas, o presidente dos EUA reacende o temor de uma escalada entre dois inimigos históricos. Especialistas em relações internacionais alertam que qualquer passo mais agressivo de Washington poderia provocar uma reação dura de Teerã e arrastar outros atores regionais para o conflito, em um Oriente Médio marcado por guerras, rivalidades sectárias e disputas por influência. Parte da oposição iraniana vê nas palavras de Trump uma oportunidade de pressionar ainda mais o regime, embora uma intervenção direta continue sendo descrita como uma possibilidade remota e cheia de riscos.
Enquanto isso, nas ruas iranianas, a população segue entre a esperança e o medo. De um lado, cresce o sentimento de que o momento é único para desafiar um regime visto por muitos como distante das necessidades do povo. De outro, a memória de repressões passadas e o aumento do número de mortos alimentam o receio de que a resposta do governo se torne ainda mais violenta. Com a internet cortada e o país parcialmente desconectado do resto do mundo, relatos e imagens dos protestos chegam com dificuldade, mas indicam que a mobilização permanece, impulsionada por um misto de revolta econômica, frustração política e desejo de mudança profunda no Irã.
