Em dezembro de 2025, São Paulo enfrentou um evento climático histórico que deixou marcas profundas na cidade. Um ciclone extratropical formado no sul do Brasil gerou ventos extremos que atingiram a capital paulista nos dias 10 e 11, provocando um apagão de proporções sem precedentes e desencadeando uma crise institucional que chegou ao Palácio do Planalto.
As rajadas de vento foram extraordinárias. Na Lapa, zona oeste da capital, o Centro de Gerenciamento de Emergências registrou velocidades de 98,1 km/h, o maior valor sem presença de chuva documentado desde 1963, quando o Instituto Nacional de Meteorologia começou suas medições. No Aeroporto de Congonhas, os ventos alcançaram 96,3 km/h. O que tornou o evento ainda mais inusitado foi sua duração: o vendaval começou por volta das 9 horas da manhã de quarta-feira e se estendeu até as 21 horas, mantendo rajadas acima de 75 km/h durante praticamente todo o dia. Essa persistência chamou atenção dos meteorologistas, pois em outras ocasiões em que a capital registrou ventos tão intensos, como em setembro anterior, a cidade enfrentava temporais. Desta vez, porém, o céu permaneceu firme, com sol entre nuvens e nenhum sinal de chuva.
O ciclone formou-se de maneira considerada especial pelos especialistas, desenvolvendo-se sobre o continente e não sobre o oceano, como costuma ocorrer. Os meteorologistas descrevem o sistema como gigante, com mais de mil quilômetros de extensão, o que explica sua capacidade de gerar impactos severos mesmo operando a distância do Rio Grande do Sul.
A destruição foi massiva. Mais de 330 árvores caíram na região metropolitana, muitas delas sobre a fiação elétrica. Inicialmente, a Enel informou que cerca de 2 milhões de clientes haviam sido atingidos no pico do evento, quando simultaneamente este era o número de pessoas sem energia em tempo real. No entanto, após análise posterior, a concessionária revisou os dados, informando à Agência Nacional de Energia Elétrica que o número acumulado de clientes desligados ao longo do dia 10 foi de 4,4 milhões de unidades consumidoras. A empresa explica que, conforme reconectava clientes desligados, outros eram impactados sucessivamente pela força contínua do vendaval.
A falta de energia se estendeu além do fim de semana. Na sexta-feira, 50 horas após o vendaval, mais de 700 mil pessoas ainda amanheceram sem luz na região metropolitana. A demora nas reparações gerou frustração crescente. A Enel alegou que o problema foi causado pelos ventos de cem quilômetros por hora e que em algumas partes da cidade o trabalho demorava mais porque incluía a reconstrução completa da rede. A empresa ofereceu geradores a hospitais e a clientes que dependiam de aparelhos elétricos essenciais, mas estas medidas não acalmaram os ânimos.
O prefeito Ricardo Nunes criticou duramente a concessionária, chamando-a de irresponsável. Na quinta-feira à noite, vários carros com o logotipo da Enel foram filmados estacionados no pátio da empresa no centro de São Paulo, o que enfureceu ainda mais moradores e autoridades que questionavam por que recursos não estavam sendo empregados nas reparações. Nunes informou à imprensa que tinha alertado a empresa sobre a falta de empenho em resolver os problemas.
Os impactos transcenderam a falta de eletricidade residencial. A concessionária de água Sabesp informou que a falta de energia já afetava seus serviços, pois as bombas não funcionavam adequadamente. Centenas de voos foram cancelados, principalmente no Aeroporto de Congonhas, com repercussões em outros aeroportos brasileiros. Muitos passageiros permaneceram na fila do aeroporto na quinta à noite sem certeza se seus voos decolariam. Consultas médicas tiveram de ser canceladas. Psicólogos, profissionais liberais e comerciantes migraram para centros comerciais e cafés para poder trabalhar, uma vez que suas casas e estabelecimentos permaneciam sem energia.
O setor comercial sofreu perdas substanciais. Segundo levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, o comércio e os serviços perderam ao menos 1,54 bilhão de reais em faturamento entre quarta e quinta-feira apenas na capital por causa da falta de eletricidade.
A crise ultrapassou as fronteiras da prefeitura. O governo do Estado de São Paulo, através de Tarcísio de Freitas, e a prefeitura, através de Ricardo Nunes, junto ao ministério das Minas e Energia, anunciaram que levariam à Agência Nacional de Energia Elétrica um pedido de caducidade do contrato de concessão de distribuição de energia que a Enel mantém com a capital paulista. O presidente Lula, ao tomar conhecimento das falhas, determinou uma investigação das deficiências da concessionária em São Paulo.
Moradores reclamam que episódios similares ocorrem repetidamente. Thaisa Fernandes, psicóloga de 45 anos que ficou sem energia em seu apartamento na Vila Madalena, afirmou que a empresa havia enviado várias estimativas falhidas sobre quando os serviços seriam restabelecidos. Para ela, era a terceira vez no ano que isso acontecia. Nem a empresa nem as autoridades locais, em sua percepção, eram confiáveis.
Especialistas alertam para mudanças no padrão climático. Cesar Soares, meteorologista do Climatempo, afirma que esses eventos extremos, antes considerados inusitados e extremos, tendem a se tornar frequentes. Com mais energia na atmosfera, mais aquecimento e mais calor retido, especialistas preveem que São Paulo enfrentará condições cada vez mais severas e intensas. A Climatempo chegou a adotar novos métodos de classificação de rajadas de vento, seguindo metodologia americana que diferencia eventos com e sem chuva, refletindo a necessidade de melhor compreender esses fenômenos que se aproximam das categorias mais altas da Escala de Beaufort.
