# Enamed expõe fragilidades na formação médica brasileira e gera debate sobre regulação
A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) revelou que cerca de 30% dos cursos avaliados apresentaram desempenho insatisfatório, com menos de 60% dos estudantes alcançando a nota mínima para proficiência. Os piores resultados concentram-se em instituições municipais e privadas com fins lucrativos.
Dos 39.258 estudantes concluintes que participaram da prova, 13.871 estão se formando em faculdades com conceitos 1 e 2. O Ministério da Educação anunciou sanções para essas instituições, incluindo supervisão, redução de vagas de até 50%, suspensão de ingresso de novos alunos e exclusão de programas como Fies e Prouni. As medidas começarão a valer após período de 30 dias para que os cursos apresentem defesa.
O Conselho Federal de Medicina destacou que a expansão acelerada de cursos, especialmente no setor privado, não foi acompanhada de critérios mínimos de qualidade e infraestrutura. De 24 faculdades que receberam nota 1, 17 são particulares. Entre as 83 que obtiveram conceito 2, 72 são privadas. Dos 350 cursos avaliados, apenas 49 conquistaram a nota máxima, sendo 84% de instituições públicas.
A entidade propõe a criação de um Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), obrigatório para a concessão de registro aos novos médicos. Segundo o presidente do Conselho Federal de Medicina, José Hiran Gallo, “quando mais de um terço dos egressos obtém desempenho considerado insuficiente, estamos diante de um problema estrutural gravíssimo”.
Especialistas, porém, apontam que a solução vai além de provas. A professora Eliana Amaral, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas e ex-presidente da Câmara de Educação Superior do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, defende o fortalecimento do sistema de regulação que fiscaliza as faculdades. “A faculdade que inventou de ter uma escola de medicina sabe que vai transformar a pessoa em médico e portanto assumiu essa responsabilidade com a sociedade. Mas o sistema de regulação tem que orientar qual poderia ser a solução, tem que estabelecer um plano de trabalho e fazer essa instituição se comprometer.”
Amaral ressalta que os problemas já eram conhecidos pelo Enade, exame aplicado historicamente a formandos de medicina, e critica a medição da qualidade de um curso apenas por uma prova. Ela destaca o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior, que inclui inspeções in loco para verificar infraestrutura e formação prática.
A professora enfatiza que a formação prática é fundamental. “Onde se aprende a cuidar de gente? Quando você cuida de gente. E para isso a faculdade tem que garantir um bom estágio de clínica médica, pediatria, cirurgia. E depende não só de você entender os sintomas e o que você prescreve, mas também a postura profissional, que é altamente influenciada pelos exemplos adquiridos com bons professores.”
O presidente da Associação Médica Brasileira, César Eduardo Fernandes, critica a expansão desenfreada de vagas de medicina. “Quase metade do curso tem que ser feito em campo prático, e isso pressupõe bons laboratórios, bons ambulatórios de atenção básica, unidades de pronto atendimento, de atenção ambulatorial de média complexidade.” Ele argumenta que a falta de médicos em regiões remotas não se resolve abrindo faculdades, mas com políticas de alocação, melhor infraestrutura e salários atrativos. “É uma ideia equivocada criar escolas médicas como bancos assistenciais. Muitas vezes elas são colocadas em municípios que não têm menor condição de assistir a sua população, muito menos de usar essas vagas assistenciais como campo de ensino para o médico.”
Amaral propõe um acordo de sociedade com regulação séria, envolvendo Ministério da Saúde e secretarias para definir locais adequados de prática. A estudante Vanessa Conceição da Cruz, que se forma na Universidade Federal de Viçosa (que recebeu nota máxima no Enamed), elogia a formação prática em cidade pequena de Minas Gerais. “A estrutura é realmente muito boa. Temos os hospitais e parcerias com municípios vizinhos, o que nos permite ter uma gama de cenários bem diversificados, mais urbanos, mais rurais. E o contato com os pacientes ocorre desde os primeiros anos do curso. Um dos pontos fortes aqui é isso, muito contato com a porta de entrada da saúde, a atenção primária, as unidades básicas.”
Vanessa afirma que os estágios ajudaram no Enamed e reforça a necessidade de fiscalização constante para garantir cenários práticos suficientes, especialmente em atenção primária e pronto-atendimento, áreas comuns para recém-formados.
