Autoridades sanitárias da Índia estão em alerta máximo com um surto do vírus Nipah na província de Bengala Ocidental, onde cinco casos foram confirmados entre profissionais de saúde de um hospital perto de Calcutá. Cerca de 100 pessoas que tiveram contato próximo com os infectados foram colocadas em quarentena na unidade, enquanto equipes de vigilância rastreiam possíveis contágios e monitoram sintomas em mais de 180 indivíduos testados até o momento.
O surto teve início em Barasat, a cerca de 25 quilômetros de Calcutá, quando dois enfermeiros desenvolveram febre alta e problemas respiratórios após cuidarem de um paciente que faleceu antes da confirmação do vírus. Posteriormente, um médico, outra enfermeira e um agente de saúde do mesmo hospital testaram positivo, sendo transferidos para uma unidade especializada em doenças infecciosas. O paciente inicial é considerado o caso índice suspeito, e todos os infectados recebem tratamento intensivo, com uma das enfermeiras em estado crítico.
Esse vírus zoonótico, cujo reservatório natural são morcegos frugívoros do gênero Pteropus, foi identificado pela primeira vez em 1998-1999, durante um surto entre criadores de porcos na Malásia e Singapura. Desde então, surtos recorrentes ocorrem no Sudeste Asiático, especialmente em Bangladesh e na Índia, com Kerala registrando nove episódios desde 2018. Na Bengala Ocidental, é o primeiro registro desde 2007.
A transmissão ocorre principalmente por contato direto com morcegos infectados, fluidos corporais deles ou frutas contaminadas por saliva, urina ou fezes. Há relatos de passagem entre humanos, via secreções ou no cuidado hospitalar de pacientes, como visto neste caso. Fatores ambientais e culturais na Índia favorecem os reaparecimentos: nesta época do ano, a seiva doce das tamareiras atrai morcegos, que a contaminam com saliva. Locais consomem essa seiva crua, sem pasteurização, facilitando a infecção. Frutas caídas no chão, contaminadas e comidas por porcos ou humanos, também propagam o vírus.
Os sintomas iniciais incluem febre, dor de cabeça, muscular, vômitos e dor de garganta. O quadro pode evoluir rapidamente para encefalite aguda, com tontura, sonolência, alterações de consciência, pneumonia e problemas respiratórios graves, levando a coma e morte em um ou dois dias. A letalidade varia de 40% a 75%, podendo chegar a 100% em alguns surtos, e sobreviventes enfrentam sequelas em até 20% dos casos. Não há vacina nem tratamento específico; o manejo é sintomático, com suporte intensivo.
Embora o potencial pandêmico seja considerado baixo em comparação a vírus respiratórios como o da covid-19 ou sarampo, devido à transmissão menos eficiente e à ausência do reservatório de morcegos na Europa e Américas, especialistas recomendam monitoramento rigoroso. O período de incubação, de 4 a 14 dias e até 45 em raros casos, permite viagens longas por infectados assintomáticos, possibilitando surtos distantes. Países vizinhos como Tailândia, Nepal e Taiwan reforçaram controles em aeroportos, e o Ministério da Saúde indiano emitiu alertas para todos os estados, priorizando casos de encefalite aguda com histórico de viagem à região.
O infectologista Benedito Fonseca, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, destaca que a recorrência na Índia liga-se à flora local, presença de morcegos e hábitos alimentares, mas enfatiza o risco limitado de disseminação global. Autoridades indianas mobilizaram equipes para contenção, com testes negativos em contatos iniciais, mas reavaliações ao fim da quarentena de 21 dias. A Organização Mundial da Saúde classifica o Nipah como patógeno prioritário para pesquisa, reforçando a necessidade de prevenção em comunidades densas e interconectadas.
