Enquanto a extrema-direita brasileira critica o Bolsa Família, silencia sobre os extensos programas sociais norte-americanos

“O Brasil não tem mais jeito. O Bolsa Família tá acabando com o Brasil.” Essa é a frase que Ricardo Molina, corretor de imóveis brasileiro radicado nos Estados Unidos e produtor de conteúdo com quase 1 milhão de seguidores no YouTube, ouve constantemente de seus clientes brasileiros quando chegam à América. A crítica feroz que as elites brasileiras direcionam ao Bolsa Família contrasta drasticamente com o silêncio quase absoluto, diante dos robustos programas sociais norte-americanos.

Em vídeo polêmico publicado em seu canal, Molina desmonta essa contradição com dados concretos: enquanto o Bolsa Família brasileiro paga entre R$ 600 e R$ 700 mensais por família, o SNAP (Supplemental Nutrition Assistance Program) americano, conhecido popularmente como Food Stamps, paga em média US$ 1.000 por mês para um casal com dois filhos, podendo chegar a US$ 1.800 para famílias maiores — o equivalente a quase R$ 10.000 mensais apenas em auxílio alimentação.

Essa diferença proporcional é devastadora contra o argumento de que programas sociais “acabam com países”. Os Estados Unidos, símbolo mundial do capitalismo e maior economia do planeta, não apenas mantêm programas sociais mais generosos que o Brasil, como os consideram fundamentais para o desenvolvimento econômico.

A lição da Grande Depressão: quando os EUA entenderam

Molina explica que foi durante a crise de 1929-1930 que os americanos compreenderam uma verdade econômica fundamental: quando pessoas entram na faixa da pobreza, não é só a vida delas que piora, mas o país inteiro sofre. A economia para, negócios falem, a produtividade despenca, a violência e as doenças aumentam exponencialmente.

Conforme relata o corretor, “é impossível você recuperar um país economicamente se você não ajudar essas pessoas a melhorar de vida”. Foi com essa lógica pragmática, não ideológica, que nasceram os principais programas sociais americanos: para evitar que problemas individuais se transformassem em crises sistêmicas. Esses programas, desenvolvidos tanto por governos democratas quanto republicanos, estabilizam a economia, melhoram mercados e permitem que pessoas em vulnerabilidade trabalhem, estudem, consumam e produzam.

O multiplicador econômico: cada dólar investido gera US$ 1,70

Um dos argumentos mais contundentes apresentados por Molina vem de um estudo do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos): para cada US$ 1 destinado a programas sociais, US$ 1,70 retorna para a economia. Ou seja, o investimento social não diminui a economia — pelo contrário, a expande.

Essa é a “cabeça do americano”, como define Molina: o governo sabe que todo o dinheiro do subsídio volta imediatamente para a economia na forma de consumo, fazendo a roda girar. Não se trata de caridade ou bondade, mas de cálculo econômico racional.

Ricardo Molina, como profissional do mercado imobiliário, oferece uma perspectiva única sobre porque o setor privado americano apoia programas sociais. Ele detalha o funcionamento do auxílio-moradia (Housing Assistance), que cobre entre 70% e 90% do aluguel de famílias de baixa renda.

O beneficiário escolhe onde morar, mas não em conjuntos habitacionais governamentais tipo COHAB, e sim em residências privadas no mercado regular. O governo federal paga diretamente ao proprietário. “Sabe quem mais gosta disso? Não é o inquilino, são os investidores, são os proprietários, são as construtoras, são as imobiliárias, que têm garantia de receber em dia esse valor do aluguel”, explica Molina.

Essa é a chave que as elites brasileiras fingem não entender: o dinheiro proveniente do governo federal é receita garantida, pontual e sem risco de inadimplência. Para o corretor, esse é o principal motivo pelo qual não existem favelas nos Estados Unidos e as pessoas moram dignamente (regra geral, veja bem, o programa não chega universalmente para todos e existem filas que duram décadas) ou no mínimo em mobile homes, porque o governo subsidia a moradia.

No Brasil, o retorno aos cofres do governo com o investimento no Bolsa Família revelam dados ainda mais contundentes. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) demonstram que cada R$ 1 investido no Bolsa Família gera um aumento de R$ 1,78 no PIB brasileiro, um retorno proporcionalmente superior ao multiplicador americano. Pesquisa mais recente do Banco Mundial, divulgada em 2023, identificou um efeito multiplicador ainda maior: R$ 2,16 para cada real investido no programa, superando a média internacional de programas similares.

Segundo a economista sênior do Banco Mundial, Joana Silva, “é o melhor programa que existe no Brasil”, destacando que nos municípios onde o Bolsa Família se expandiu de forma consolidada houve aumento significativo do consumo (54% em serviços sendo dois terços em lojas formais), dos empregos, do número de contas bancárias e da arrecadação de impostos.

O estudo conclui que o programa aumenta em 2,40% o consumo das famílias beneficiadas — impacto muito superior ao de transferências previdenciárias como seguro-desemprego (1,06%) ou Regime Próprio de Previdência Social (0,53%). Em termos de viabilidade fiscal, a análise do Ministério do Desenvolvimento Social aponta retorno de 8,5% sobre cada real investido, considerando tanto efeitos sociais quanto econômicos. Portanto, a narrativa de que o Bolsa Família “quebra o país” não encontra sustentação em nenhuma evidência empírica — pelo contrário, os dados comprovam que o programa é um dos mais eficientes motores de crescimento econômico e formalização do mercado de trabalho brasileiro.

E há um componente adicional no cálculo brasileiro que acredito ser digno de nota. O que torna o investimento em programas sociais no Brasil ainda mais estratégico é que, diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil mantém o Sistema Único de Saúde (SUS), que atende universalmente toda a população, por força da Constituição Federal de 1988. A lógica aqui é implacável: uma população sem acesso ao mínimo existencial torna-se mal nutrida, e pessoas famintas adoecem com maior frequência e gravidade. Essa população faminta e doente inevitavelmente termina lotando a rede pública de saúde, gerando custos exponencialmente superiores ao investimento preventivo em alimentação. Enquanto o Bolsa Família custa ao redor de R$ 600 mensais por família, uma única internação hospitalar no SUS pode custar milhares de reais aos cofres públicos.

Doenças decorrentes de desnutrição como anemia, raquitismo, comprometimento do desenvolvimento cognitivo infantil, vulnerabilidade a infecções, representam não apenas tragédias humanas, mas também despesas evitáveis para o Estado. Investir em transferência de renda para alimentação é, portanto, não apenas política social, mas gestão fiscal racional: previne gastos futuros em saúde, reduz absenteísmo escolar e laboral, melhora a produtividade da força de trabalho e desafoga o sistema de saúde. O argumento de que “não há dinheiro” para o Bolsa Família ignora que a alternativa (deixar milhões na fome) sai infinitamente mais cara para os cofres públicos, além de moral e juridicamente inaceitável.

A rede completa: muito além do SNAP

De volta ao vídeo do Molina, ele detalha que o sistema de proteção social americano vai muito além da alimentação: o Medicaid, equivalente ao SUS para população de baixa renda, atende 85 milhões de americanos, ou um terço da população. Cobre consultas, cirurgias, internações e medicamentos complexos. Para famílias com crianças pequenas, existe o CHIP, plano de saúde gratuito adicional.

Além da escola pública gratuita do jardim de infância ao ensino médio, o governo federal reembolsa despesas com creches. A lógica? Se mães não têm onde deixar crianças, não trabalham, retirando mão de obra da economia. É mais rentável para o governo pagar pela creche do que perder a produtividade de milhões de trabalhadoras. Lembre-se de que a realidade de ser mãe e solteira é cada vez mais comum.

Molina enfatiza um ponto crucial do pensamento americano médio: esses programas existem “para reconhecer que nem todo mundo parte do mesmo ponto quando a gente fala de meritocracia. Tem gente que já nasce privilegiada”. Os programas sociais servem justamente para equalizar oportunidades.

E antes que alguém o chame de “socialista” ou “esquerdinha”, o corretor esclarece: “Tudo que eu falo nesse vídeo nem é a opinião minha. São conclusões baseadas em conversas com clientes, fornecedores e amigos americanos, o consenso social de uma nação capitalista”.

O Contraste brasileiro: quando R$ 600 é “vagabundagem”

No Brasil, empresários bilionários e endinherados afirmam que brasileiros estão “viciados no Bolsa Família”, por receberem R$ 600 mensais. Nos Estados Unidos, nenhum empresário sério chamaria beneficiários do SNAP de “vagabundos” por receberem US$ 1.000 mensais. Pelo contrário: eles agradecem ao governo por garantir fluxo de caixa estável.

A diferença não está nos valores ou na estrutura dos programas. Está na composição social dos beneficiários e no preconceito de classe das elites. Conforme apontam analistas, a crítica do “rei do ovo” e similares ao Bolsa Família é uma “visão elitista e preconceituosa dos pobres”. Ignoram evidências do Ipea demonstrando correlação entre expansão do programa e aumento do emprego formal.

Essa narrativa de demonização do Bolsa Família encontra eco principalmente entre políticos da extrema-direita brasileira. A deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), uma das vozes mais ativas na cruzada contra programas assistencialistas e produz frequentemente conteúdos em suas redes sociais atacando o Bolsa Família, o Vale Gás e demais políticas. Em vídeo recente publicado em seu Instagram, Zanatta repete o discurso de que o assistencialismo “vai criando uma nação de vagabundos”, é o termo que ela usa, “gente que pode e não quer trabalhar”. A parlamentar já afirmou que programas sociais são “método de controle, manipulação e projeto de poder”, acusando o governo de “comprar votos através da distribuição de dinheiro”.

Zanatta chegou a protocolar requerimento ao Ministério do Desenvolvimento Social questionando se beneficiários do Bolsa Família estariam usando recursos para comprar drogas, além de ter causado polêmica ao comparar estados brasileiros dizendo que Santa Catarina “dá certo” porque tem mais pessoas com carteira assinada do que no Bolsa Família, ao contrário do Maranhão. O paradoxo é evidente: enquanto a deputada celebra o “modelo americano” de desenvolvimento capitalista, ignora completamente que os Estados Unidos mantêm programas sociais proporcionalmente muito mais generosos que o Bolsa Família — e ninguém por lá os chama de “método da vagabundagem”. Abaixo mais um vídeo em que a deputada vocicefera contra programas sociais do Brasil.

https://www.instagram.com/reel/DRLC9AAEtta/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==

A contradição entre discurso e prática, porém, revela-se gritante quando analisamos o uso que a própria Zanatta faz do dinheiro público. Enquanto classifica beneficiários do Bolsa Família como “vagabundos” sustentados pelo Estado, a deputada não demonstra o mesmo pudor ao direcionar emendas parlamentares para interesses pessoais e de aliados. Uma emenda de R$ 800 mil destinada pela parlamentar a um clube de tiro em São José (SC), propriedade de amigos que ela trata pelos apelidos “Alexandre”, “Zaba” e “Moratelli”, está sob investigação do Tribunal de Contas de Santa Catarina por suspeita de direcionamento licitatório.

O relatório do TCE-SC aponta mais de 200 irregularidades no processo, incluindo pesquisa de preços restrita, critérios sob medida para beneficiar a empresa Top Gun, ausência de alternativas públicas e até falsificação de documentos. A gravidade dos achados levou à recomendação de encaminhamento para a Polícia Federal e Ministério Público Federal. Na inauguração do clube, Zanatta prometeu publicamente: “Ano que vem eu vou enviar mais recursos para que a Guarda Municipal possa continuar treinando em um clube de tiro. E não só para treinamento, vamos enviar para comprar munição, fuzil e tudo que for necessário”. A ata de registro de preços que sustenta o contrato tem valor total de R$ 3 milhões e foi prorrogada até novembro de 2026, abrindo margem para novas transferências.

A deputada petista Ana Paula Lima (PT-SC) protocolou representação na Procuradoria-Geral da República alertando para o “risco de captura privada do orçamento público”, transformando recursos federais em “ativo político particular” para financiar negócios privados alinhados a projetos ideológicos. Aparentemente, para Zanatta, R$ 600 mensais para alimentar uma família pobre são “vagabundagem”, mas R$ 800 mil para clube de tiro de amigos é gestão responsável dos recursos públicos.

Consenso bipartidário vs. guerra Ideológica

Enquanto nos Estados Unidos tanto republicanos quanto democratas mantêm o compromisso com programas sociais estabelecido há nove décadas, no Brasil um programa que exige contrapartidas (frequência escolar, vacinação) e tira famílias da extrema pobreza é tratado como heresia econômica.

Ricardo Molina, mesmo sendo profissional do mercado imobiliário e convivendo no coração do capitalismo americano, conclui: “Se você é um dos que entende que esses programas sociais são benéficos quando bem administrados, sem corrupção, direcionados para as pessoas certas, isso gera oportunidade e crescimento econômico”.

A lição ignorada

A experiência americana pós-1929 comprovou que abandonar a população na miséria não fortalece a economia, pelo contrário, a destrói. Cada dólar investido retorna multiplicado porque consumo gera produção, produção gera emprego, emprego gera dignidade e estabilidade social. Os Estados Unidos aprenderam essa lição há quase um século e construíram consenso político em torno dela.

A crítica virulenta ao Bolsa Família, portanto, não é técnica nem econômica: todos os dados disponíveis, do Ipea ao Banco Mundial, apontam na direção oposta. A maior e mais bem desenvolvida nação capitalista do mundo, e muitas vezes considerada como ideal de país pelos críticos mais ferrenhos dos programas sociais brasileiros, não abre mão deles.

A crítica, na verdade, é de cunho ideológico e preconceituoso. Revela que, para certos setores da sociedade brasileira, o problema não é o assistencialismo em si porque, afinal, não criticam o SNAP americano que chega US$ 1.800 mensais, mas sim a cor da pele, o CEP, o sotaque e a conta bancária de quem é assistido. Nos Estados Unidos chamam de “rede de segurança social”, e políticos brasileiros não dizem que tais programas estão destruindo o país nem tampouco criando uma “nação de desocupados”. Por outro lado, quando é o amigo dono do Clube de tiro, tudo bem. Agora quando é negro, nordestino, periférico, recebendo R$ 600 para não passar fome, vira “vagabundagem subsidiada”. A hipocrisia dessa gente não poderia ser mais transparente.

Confira o vídeo completo do influenciador em seu canal no Youtube:

Por Pedro Galhardo, advogado internacionalista

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