AGUIAR (PB) – O radiotelescópio BINGO está sendo instalado no sertão paraibano, especificamente na Serra do Urubu, no município de Aguiar. A escolha do local não foi aleatória: o vale isolado oferece baixíssima interferência de sinais de rádio, TV, celular e internet, uma condição técnica indispensável para observações astronômicas precisas e livres de ruídos artificiais. No entanto, a instalação ganhou contornos geopolíticos após ser mencionada em um relatório do Congresso dos Estados Unidos, que levanta suspeitas sobre a finalidade do projeto devido à cooperação tecnológica com a China. Vamos entender.

Objetivos científicos e a busca pela “régua cósmica”
O BINGO (sigla para Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations) é um projeto de ponta voltado à cosmologia e à astrofísica. Seu foco principal é desvendar a natureza da energia escura e da matéria escura, componentes que, embora somem cerca de 95% do universo, permanecem como um dos maiores mistérios da ciência moderna.
O equipamento opera na faixa de rádio para mapear a distribuição de hidrogênio neutro em grande escala. Isso permite aos cientistas medir a expansão acelerada do universo e estudar as oscilações acústicas de bárions. Essas oscilações funcionam como uma “régua cósmica”, essencial para compreender a estrutura do cosmos primitivo nos instantes que sucederam o Big Bang.
Fontes de financiamento e parcerias
A viabilidade do BINGO depende de um consórcio de órgãos públicos e fundações de apoio à pesquisa. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) atua como a financiadora central. No âmbito federal, o suporte vem do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Na esfera estadual, a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (FAPESPq-PB) e o Fundo Paraibano de Inovação e Tecnologia (PaqTc) são responsáveis pelos recursos destinados à infraestrutura de campo e à construção da estrutura metálica. O projeto conta ainda com o apoio de universidades e fundações de pesquisa de países como China, Suíça, Reino Unido e França.
Liderança brasileira
Embora seja um esforço internacional, o BINGO é liderado primordialmente por instituições brasileiras. A Universidade de São Paulo (USP) coordena o projeto e fornece a base científica teórica, enquanto o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) responde por parte da engenharia e construção de componentes críticos.
As universidades federais de Campina Grande (UFCG) e da Paraíba (UFPB) atuam como executantes locais e integram o laboratório conjunto China-Brasil de tecnologia em radioastronomia. O Governo da Paraíba figura como parceiro institucional direto, com investimentos estimados entre R$ 11 e R$ 13 milhões.
A sombra da geopolítica sobre o sertão paraibano
Mas afinal, por que um empreendimento científico no interior da Paraíba foi parar em um relatório de segurança do Congresso dos Estados Unidos? A resposta não reside na astronomia, mas na complexa rede da geopolítica atual. O ponto central da preocupação de Washington é a presença da China como parceira estratégica no consórcio.

Sob a ótica norte-americana, a alta sensibilidade dos receptores do BINGO, projetados para captar sinais a bilhões de anos-luz de distância, levanta suspeitas sobre o potencial de “uso dual” da tecnologia. Em um cenário de disputa por hegemonia tecnológica, os EUA temem que a infraestrutura possa ser desviada de sua finalidade acadêmica para o monitoramento de satélites ou comunicações estratégicas, uma tese que colide frontalmente com a transparência científica defendida pelas instituições brasileiras.
O posicionamento da USP
Diante das menções no relatório norte-americano, a coordenação científica da USP classificou o BINGO como um empreendimento estritamente científico e aberto à comunidade internacional. Pesquisadores do USP e do INPE reforçam que o telescópio foi projetado para captar sinais astrofísicos em frequências totalmente distintas das utilizadas por sistemas de defesa ou vigilância militar.
A própria arquitetura do projeto que é baseada em dados abertos, participação de múltiplas instituições públicas e revisão por pares acadêmicos, é apontada como uma barreira que torna inviável qualquer uso sigiloso dos dados para espionagem.
Reação do governo da Paraíba
O Governo da Paraíba confirmou ter conhecimento de que o relatório do Congresso dos EUA cita o projeto e a região de Aguiar, mas informou que aguarda uma posição formal do Itamaraty e do Ministério das Relações Exteriores antes de emitir uma nota oficial.
Cláudio Furtado, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação da Paraíba, definiu a suspeita de “base de espionagem” como algo “completamente fora da realidade”. Para o governo estadual, o projeto é transparente e possui ligações estritamente acadêmicas. Especialistas apontam que a acusação parece motivada por um discurso geopolítico, já que a lógica aplicada ao BINGO poderia, em tese, ser usada para rotular qualquer radiotelescópio de alta sensibilidade no mundo, como o FAST (China) ou o VLA (EUA). No caso do BINGO, a parceria com a China parece ter tornado o projeto um alvo conveniente para pressões políticas internacionais.