Pesquisadores da Unifesp identificam cela onde Herzog foi morto

Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou a cela onde agentes da ditadura militar simularam o suicídio do jornalista Vladimir Herzog. Torturado e assassinado em 25 de outubro de 1975, Herzog foi encontrado morto no DOI-Codi de São Paulo, um órgão de repressão subordinado ao Exército.

Deborah Neves, doutora em história e pós-doutoranda na Unifesp, destacou a importância histórica e jurídica da identificação do local. Segundo ela, localizar o espaço onde a ditadura encenou o falso suicídio de Herzog demonstra, com evidências científicas, as fraudes cometidas por agentes do Estado.

Mais de 50 anos após o assassinato, o local exato ainda era incerto. Estudos baseados em evidências documentais, periciais e arquitetônicas indicaram a sala específica onde o corpo de Herzog foi fotografado pendurado por um cinto. Na montagem dos agentes, Herzog, mais alto que a janela, ficou com os pés arrastando no chão e com marcas de tortura.

Os pesquisadores concluíram que Herzog foi pendurado em uma cela no primeiro andar do prédio onde hoje funciona a 36ª Delegacia, na Rua Tutóia, 921. A preservação das características estruturais permitiu a identificação da cela como o cenário da fotografia divulgada na época.

Elementos construtivos compatíveis com um ferrolho visível nas imagens de 1975 ainda são identificáveis na alvenaria da cela. Comparações de fotos históricas revelaram correspondências com o padrão gráfico dos tacos do local.

A análise incluiu laudos periciais dos cadáveres de José Ferreira de Almeida, assassinado em agosto de 1975, e do próprio Herzog, além de depoimentos do fotógrafo Silvaldo Leung Vieira. A dificuldade de confirmação do local se devia à discrepância entre a descrição pericial e os elementos visíveis na fotografia.

Deborah Neves encontrou um elemento importante no livro ‘A Casa da Vovó: uma biografia do DOI-Codi’, de Marcelo Godoy, que menciona a morte de Almeida, também atribuída a suicídio nas mesmas instalações. A semelhança entre os casos foi crucial para a identificação da cela.

Os laudos periciais indicam que os corpos foram encontrados na ‘cela especial número 1’, informação essencial para a identificação do local onde Herzog foi pendurado. A documentação de Almeida incluía imagens externas da cela, permitindo comparações com evidências físicas preservadas.

A única sala no prédio que apresentou as correspondências necessárias para a identificação fica no primeiro andar, no final do corredor. A descoberta foi possível graças aos trabalhos de arqueologia forense, pesquisa histórica e arquitetura realizados por equipes da Unifesp e da Rede Brasileira de Pesquisadores de Sítios de Memória e Consciência.

Fonte: Agência Brasil

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