Desafios persistem na busca por desaparecidos da ditadura militar no Brasil

Há 62 anos, o Brasil viveu um golpe militar que instaurou um regime autoritário, durando 21 anos e marcado por repressão política, censura à imprensa e perseguição a opositores. Mesmo após a redemocratização nos anos 1980, o país enfrenta dificuldades no processo de memória, reparação e justiça, especialmente em relação aos desaparecimentos forçados.

Edson Teles, coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Unifesp, destaca a ausência de um programa permanente de busca e identificação de desaparecidos no Brasil. Ele observa que, em outros países, políticas permanentes foram criadas para garantir estabilidade nas normas e práticas de estado.

Atualmente, pesquisadores do CAAF trabalham na identificação de 1.049 caixas com ossadas encontradas na vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em São Paulo, em 1990. Entre os sepultados estavam desaparecidos políticos, vítimas da ditadura. Estudos já identificaram quatro desaparecidos do período, incluindo Dimas Antônio Casemiro e Aluísio Palhano Pedreira Ferreira.

O trabalho de identificação enfrenta desafios financeiros, agravados durante o governo anterior, que suspendeu recursos destinados ao projeto. Em 2024, um novo Acordo de Cooperação Técnica foi firmado para retomar as análises das ossadas. O governo atual reintegrou o orçamento para 2024, permitindo a retomada dos trabalhos.

A ditadura militar ainda é um tema tabu no Brasil, segundo Andres Zarankin, professor de arqueologia da UFMG. Ele aponta que a elite política, econômica e militar da época ainda detém poder, dificultando pesquisas sobre o tema. Zarankin participa do Grupo de Trabalho Memorial DOI-Codi, que realiza escavações no prédio onde funcionou o órgão de repressão.

Edson Teles enfatiza a necessidade de uma política de Estado para buscar e identificar restos mortais de vítimas desaparecidas, incluindo casos recentes de desaparecimento forçado. Ele destaca que essa violência continua a ser praticada contra corpos periféricos e negros, semelhante ao período da ditadura.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 80 mil pessoas desaparecem anualmente no Brasil, com parte desses casos sendo de desaparecimento forçado, seja por má conduta de agentes do Estado ou por crime organizado.

Fonte: Agência Brasil

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