Documentário expõe abusos em operações militares no Rio de Janeiro

Desde a Eco 1992, mais de 150 operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) ocorreram no Brasil, muitas em favelas do Rio de Janeiro. O documentário ‘Cheiro de Diesel’, que estreou na quinta-feira (2), explora como essas ações geraram terror e violações de direitos humanos entre 2014 e 2018.

Um decreto presidencial autorizou uma GLO na capital fluminense dois meses antes da Copa do Mundo de 2014, sob o pretexto de segurança pública. A Operação São Francisco mobilizou 2,5 mil militares para 15 favelas do Complexo da Maré. Com duração de 14 meses e custo de R$ 350 milhões, a ocupação gerou denúncias de tortura, coerção, assassinatos e invasões de residências.

Dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, o documentário foca nos relatos dos moradores que vivenciaram esses abusos. Gizele, também moradora da Maré, relata que a promessa de segurança rapidamente se desfez com detenções de crianças e invasões de casas e organizações sociais.

As GLOs permitem o uso das Forças Armadas em crises de segurança pública, sendo decretadas pela Presidência como último recurso. O Complexo da Maré, por sua localização estratégica, foi escolhido para receber os militares. Outras três GLOs ocorreram no Rio entre 2016 e 2018, incluindo durante as Olimpíadas e uma intervenção federal militar.

Gizele Martins descreve a Maré como um laboratório para operações do Exército, destacando violações de direitos em diversas favelas. O general Walter Braga Netto, interventor em 2018, foi posteriormente condenado por envolvimento em uma trama golpista.

Natasha Neri destaca que o documentário aborda o uso político das GLOs, que não garantem segurança real aos moradores. O filme narra a história de Vitor Santiago, baleado por um cabo do Exército em 2015, resultando em coma, amputação e paralisia. O cabo foi absolvido na Justiça Militar.

Outro caso retratado é a Chacina do Salgueiro, onde oito jovens foram assassinados por soldados em 2017. A Lei n° 13491, sancionada por Michel Temer, transferiu a investigação de crimes militares contra civis para a Justiça Militar.

O documentário também aborda a tortura de 11 jovens durante uma operação em 2018 no Complexo da Penha. Natasha Neri critica a impunidade dos crimes militares, enfatizando a inconstitucionalidade do uso da Justiça Militar para julgar tais casos.

O filme, apresentado em outubro no Festival do Rio, faz sua estreia oficial com sessões no Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza e Caxias do Sul. Em Brasília, a estreia será na quinta-feira (9), com debates. A programação está disponível no Instagram oficial do documentário.

Fonte: Agência Brasil

Leia mais