A desestabilização de rotas comerciais como o Estreito de Ormuz e a guerra tarifária promovida pelos Estados Unidos são sinais de uma ordem econômica em transformação, segundo o escritor e economista Eduardo Giannetti.
Em entrevista à TV Brasil, que será exibida no Repórter Brasil, o especialista aborda temas que compõem um cenário internacional marcado por crises e conflitos. Giannetti destaca que, para 180 produtos críticos das cadeias globais de produção, existem apenas dois ou três fornecedores no mundo. Taiwan, por exemplo, responde por 90% da produção dos chips mais avançados, levando a uma busca por diversificação e segurança.
Giannetti relaciona o fim da hiperglobalização a eventos históricos como a crise financeira de 2008 e a pandemia de Covid-19, ressaltando a financeirização do período. Ele compara que, no início da hiperglobalização, havia aproximadamente 1 dólar de ativo financeiro para cada dólar de PIB, enquanto hoje essa relação varia entre 9 a 12 dólares de ativo financeiro para cada dólar de PIB.
O economista também destaca a valorização das ações na bolsa americana, de 2022 a 2026, estimada em cerca de 2 trilhões de dólares, com metade desse valor concentrado em 10 empresas de tecnologia da informação e inteligência artificial. Giannetti aponta que o ingresso de centenas de milhares de trabalhadores asiáticos no mercado de trabalho e consumo foi um dos dados mais importantes desse período econômico.
Ele observa que essa transformação foi devastadora para a classe trabalhadora ocidental, reduzindo seu poder de negociação e direitos, à medida que indústrias foram transferidas para locais como Xangai. Com a China respondendo por um terço da produção industrial mundial, Giannetti destaca a melhoria da vida de sua população, mas também a instabilidade social e política gerada.
A ascensão da extrema direita, segundo Giannetti, pode ser atribuída, em grande parte, ao ressentimento da classe trabalhadora e da classe média ocidental. Ele compara esse fenômeno ao que ocorreu nos anos 30 do século 20, com sua ocorrência simultânea em muitos países.
Com o fim da hiperglobalização, o Brasil tem a oportunidade de se reposicionar economicamente, afirma Giannetti. Ele acredita que o país possui uma dotação de recursos naturais e minerais que serão cada vez mais necessários no cenário global. O economista enfatiza a importância de aproveitar essas vantagens comparativas, industrializando-as para evitar a exportação de bens primários ‘in natura’.
Além disso, Giannetti destaca que a humanidade enfrenta uma crise civilizatória, com as mudanças climáticas sendo a maior ameaça do século 21. Ele alerta que, apesar do negacionismo, a realidade das mudanças climáticas é incontornável devido à frequência de eventos climáticos extremos. Para ele, a questão climática deve ser resolvida de forma preventiva ou, se ignorada, os custos futuros serão muito mais altos.
