Pelo menos dois de cada três empresários documentados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) como apoiadores da ditadura militar têm origem em famílias escravistas. O capítulo ‘Civis que Colaboraram com a Ditadura’ do relatório final da CNV lista as empresas que financiaram a ditadura de diferentes formas. Dos 62 empresários citados no documento e que a reportagem conseguiu refazer a árvore genealógica, pelo menos 40 são de famílias de senhores de escravos.
O levantamento inédito foi feito para o episódio ‘Como Nossos Pais’, da segunda temporada do podcast ‘Perdas e Danos’, que investiga o apoio dado pelas empresas à ditadura militar. “O que nós observamos é que a classe dominante tradicional no Brasil tem um núcleo duro desde o período colonial em todas as regiões”, explica Ricardo Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses e referência na pesquisa da genealogia do poder.
Só entraram na conta os empresários dos quais a reportagem conseguiu confirmar os antepassados, checando certidões de nascimento, atestados de óbito, livros de batismo e outros documentos disponíveis no Family Search, site de genealogia mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Sobrenomes famosos como o da família Guinle de Paula Machado, Batista Figueiredo, a Família Beltrão e a família Vidigal estão entre os citados.
Para o professor de filosofia política da Unifesp e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) Edson Teles, a lógica da extração marca o modelo econômico da ditadura. Teles traça o paralelo entre o modelo e a tradição escravista onde não só se extrai da terra, do minério, da água, da matéria-prima, mas dos próprios trabalhadores.
Edson liderou o grupo de pesquisadores responsáveis pelo mais amplo estudo feito até agora no país sobre as relações entre a ditadura militar e as empresas nacionais e multinacionais. Para ele, a união entre o poder econômico e o regime de opressão tinha um alvo: os trabalhadores. Segundo o professor Marco Antônio Rocha, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dois anos depois do golpe, o poder de compra do salário mínimo caiu pela metade.
A permanência das mesmas famílias por séculos nas altas esferas do poder é o retrato de um país em que o elevador social está quebrado. Segundo a OCDE, no Brasil, uma pessoa que nasce pobre precisa de nove gerações para chegar na classe média. Brasil, Colômbia e África do Sul se destacam na imobilidade social.
Foi para entender melhor o mecanismo da manutenção das desigualdades que a reportagem do Perdas e Danos investigou a família Bueno Vidigal. A escolha atendeu a três critérios: uma família que durante a ditadura militar teve grande influência política e econômica; atuava em vários setores da economia e marcou presença em várias frentes de apoio ao regime.
No começo do século XX, o patriarca Gastão Vidigal foi um dos fundadores da Cobrasma e do Banco Mercantil. A Cobrasma foi herdada pelo filho e, depois, pelo neto de Gastão Vidigal. Já o Banco Mercantil era presidido pelo filho de Gastão até ele morrer em 2001 e o banco ser vendido para o Bradesco.
A historiadora e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cláudia Moraes de Souza encontrou registros da Cobrasma no Ministério do Trabalho que mostram condições de trabalho que se aproximavam de situações análogas à escravidão. Foi nesse cenário de precariedade que a Cobrasma virou epicentro de um dos maiores levantes operários do país, em plena ditadura militar, a greve de Osasco de 1968.
A Operação Bandeirantes – Oban – foi criada meses depois do AI-5, um dos principais aparatos de tortura da ditadura. Tanto a OBAN quanto os DOI-CODIs foram financiados por empresas nacionais e multinacionais. Entre os sócios das financiadoras estava o Banco Mercantil, de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal.
O jornalista Ivan Seixas tinha 16 anos quando foi preso e torturado com o pai no DOI-CODI de São Paulo. Dentro do aparelho de tortura, eles descobriram que outra forma de financiamento da repressão eram os prêmios oferecidos na caça a opositores do regime.
A família Bueno Vidigal também esteve à frente do Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), que tinha a função de estudar meios de adaptar as indústrias para a produção de materiais militares. A Cobrasma é acusada de ter transformado carros da PM em blindados de guerra que seriam usados para conter manifestações de rua.
Em troca de todo esse apoio, os empresários recebiam incentivos fiscais, contratos com o governo e empréstimos bilionários. No auge, a Cobrasma chegou a faturar cerca de U$470 milhões por ano.
Gastão Vidigal nasceu em 1889, em São Paulo, herdeiro de uma família bem posicionada do Nordeste brasileiro e casado com Maria Amélia Pontes Bueno, herdeira de uma família muito tradicional de São Paulo, os Buenos. Buscando os antepassados dos Vidigal, a reportagem do Perdas e Danos encontrou registros que confirmam a prática escravista.
Hoje, o nome Gastão Vidigal batiza centenas de endereços pelo país afora: avenidas, ruas, travessas, becos, praças, um aeroporto e até uma cidade no interior de São Paulo. Para José Marciano Monteiro, professor da Universidade Federal de Campina Grande (PB), são demarcações feitas pelas elites que não são apenas nomes de ruas, mas lugares de memória que ajudam a manter as desigualdades.
A Cobrasma encerrou as operações em 1998. Já Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, do Banco Mercantil, morreu em 2001, aos 82 anos, como um dos homens mais ricos do país. A família voltou às manchetes em 2019, quando um outro banco do clã, o Banco Paulista, foi investigado pela Operação Lava Jato, acusado de lavar R$ 48 milhões para a Odebrecht.
A reportagem do Perdas e Danos entrou em contato com a assessoria de imprensa do Banco Paulista e perguntou se alguém da família aceitaria falar sobre a tradição escravista na origem da riqueza do clã e se, depois de 60 anos, teriam interesse em fazer uma revisão sobre o apoio dado por integrantes da família à ditadura. Não houve resposta para nenhuma das questões.
