A Polícia Federal (PF) afirma ter indícios de que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) recebia pagamentos mensais que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Ele também teria outras benesses, como o custeio de viagens internacionais, hospedagens e despesas em restaurantes, além de voos privados e uso de imóveis de alto padrão pertencentes a Vorcaro.
Essas informações constam da representação que a PF apresentou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), o que resultou na deflagração da 5ª fase da Operação Compliance Zero. Em troca dessas vantagens, o senador apresentava projetos de lei de interesse do banqueiro, como a Emenda nº 11 à Proposta de Emenda à Constituição nº 65, em agosto de 2024.
O texto, conhecido como Emenda Master, ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. De acordo com os investigadores, o texto foi elaborado por assessores do Banco Master e entregue na residência de Ciro Nogueira para que ele apresentasse ao Congresso.
Segundo as investigações da PF, Vorcaro teria dito a interlocutores que a emenda “saiu exatamente como mandei” – fato que, segundo os mesmos interlocutores, tinha potencial para “sextuplicar” os negócios do Master. Além disso, Nogueira teria recebido outras vantagens econômicas indevidas, como a aquisição de participação societária na empresa Green Investimentos S.A. por apenas R$ 1 milhão, equivalente a R$ 13 milhões.
A participação societária na Green foi formalmente adquirida pela CNLF Empreendimentos Imobiliários, administrada por Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro Nogueira. O senador Ciro Nogueira é o atual presidente do Partido Progressista (PP) e foi ministro-chefe da Casa Civil em 2021 e 2022, no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Analisando as informações da Polícia Federal, o ministro André Mendonça afirmou que “os autos reúnem diversos elementos de prova, dentre os quais se destacam comprovantes bancários de transferências, registros de viagens e mensagens eletrônicas trocadas, em tese, entre integrantes da organização criminosa”. Com base nos indícios apresentados pela PF e no parecer do Ministério Público, o ministro André Mendonça proibiu Ciro Nogueira de manter qualquer tipo de contato com investigados na Operação Compliance Zero, bem como com testemunhas no inquérito.
Também decretou a prisão temporária, por cinco dias, de Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, apontado como operador financeiro do banqueiro e operador da aquisição societária da Green Investimentos pela CNLF. Cançado foi detido na manhã de hoje. Mendonça também proibiu o irmão de Ciro Nogueira de deixar o país. Silva Nogueira Lima terá de usar tornozeleira eletrônica e está proibido de manter contato com investigados e testemunhas do inquérito da Compliance Zero.
Em nota, o advogado do senador repudiou “qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”, reiterando o compromisso de “contribuir com a Justiça, a fim de esclarecer que não teve qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados, colocando-se à disposição para esclarecimentos”. A reportagem não conseguiu contato com as defesas de Felipe Cançado Vorcaro e de Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima.
