Cidades brasileiras enfrentam desafios na elaboração de planos contra calor extremo

A maioria das cidades brasileiras, 66%, ainda não iniciou ou está apenas começando a elaborar planos de ação para enfrentar o calor extremo. Este dado faz parte de um estudo divulgado pela presidência brasileira da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

O levantamento integra a iniciativa Mutirão Contra o Calor Extremo, que faz parte da plataforma global Coalizão pelo Resfriamento. Esta iniciativa reúne 258 cidades em todo o mundo, incluindo 105 no Brasil. O estudo foi realizado em 53 cidades brasileiras e revelou sinais contraditórios: 93% dos gestores reconhecem o calor extremo como um problema relevante, mas essa percepção ainda não se traduz em ações efetivas devido a lacunas de dados, governança e financiamento.

Três quartos das cidades não utilizam dados de forma estruturada para apoiar decisões sobre o tema, enquanto 85% dependem de recursos externos para implementar medidas de adaptação. Apenas 42% possuem sistemas de informações geográficas para mapear riscos relacionados ao fenômeno. As ações adotadas atualmente se concentram em soluções baseadas na natureza, como arborização urbana e criação de áreas sombreadas, presentes em 77% dos municípios.

Em contraste, estratégias de resfriamento passivo em edificações e espaços urbanos aparecem em apenas 21% ou menos das cidades. Outra fragilidade identificada está nas compras públicas, com mais de 80% dos municípios ainda sem critérios sustentáveis voltados ao resfriamento urbano.

Os pesquisadores explicam que o calor extremo não é apenas um dia muito quente, mas ocorre quando, por dois ou mais dias seguidos, o calor acumulado não é dissipado à noite. Este fenômeno deixou de ser apenas um desconforto sazonal e tornou-se uma ameaça crescente à saúde pública. O Pnuma alerta para cerca de meio milhão de mortes anuais no mundo devido ao calor extremo.

No Brasil, entre 2000 e 2020, ondas de calor foram associadas a aproximadamente 50 mil mortes em regiões metropolitanas. A CEO da COP30, Ana Toni, destaca que a adaptação a essa nova realidade exige colaboração entre diferentes setores da sociedade e níveis de governo.

Criado em 2025, o Mutirão Contra o Calor Extremo busca apoiar municípios na elaboração de diagnósticos, planos de ação e estratégias de financiamento. Nos próximos 12 a 18 meses, 51% das cidades participantes pretendem desenvolver políticas municipais completas, enquanto 28% planejam intervenções em áreas vulneráveis. A expectativa é que as ações beneficiem cerca de 7 milhões de pessoas.

A necessidade de acelerar essas iniciativas é ainda mais relevante diante da possibilidade de formação de um ‘Super El Niño’ em 2026, conforme previsões do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Este fenômeno pode intensificar secas e incêndios no Norte e Nordeste, aumentar a frequência de ondas de calor no Centro do país e provocar chuvas extremas na Região Sul.

Fonte: Agência Brasil

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