Durante as festividades de São João em Campina Grande, na Paraíba, a segurança no consumo de bebidas alcoólicas é uma prioridade. Neste cenário, uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), com apoio financeiro do Governo da Paraíba através da Secretaria da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties) e da Fundação de Apoio à Pesquisa da Paraíba (Fapesq), tem se destacado. Essa inovação faz parte da campanha “São João Livre de Metanol”, que é uma colaboração entre a UEPB e o Procon-PB para garantir a segurança dos consumidores durante as festividades de 2026.
A tecnologia permite detectar rapidamente a presença de metanol e outras adulterações em bebidas destiladas, utilizando um equipamento portátil. O metanol é extremamente tóxico e pode causar graves consequências à saúde, como intoxicações, cegueira e até morte. Por isso, ferramentas que auxiliam na fiscalização e na resposta rápida das autoridades são fundamentais para a proteção do consumidor.
A pesquisa é liderada pelo professor Railson de Oliveira Ramos, em parceria com o professor David Douglas Fernandes, ambos do Programa de Pós-Graduação em Química da UEPB, além da professora Nadja Maria Oliveira, pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da UEPB. Outros docentes, como as professoras Simone Simões, Sara Regina e Conceição Menezes, também participam do projeto. Este trabalho demonstra como a combinação de ciência, inovação tecnológica e políticas públicas pode resultar em soluções práticas para problemas que afetam diretamente a população.
A tecnologia ganhou notoriedade nacional após casos de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas. Os pesquisadores da UEPB desenvolveram métodos para detectar fraudes em bebidas alcoólicas sem a necessidade de análises demoradas ou complexas. O uso de espectroscopia de infravermelho próximo e médio, aliado a ferramentas de modelagem quimiométrica, permite que o equipamento analise a bebida mesmo com a garrafa lacrada, identificando alterações na composição original, como a presença de metanol ou adição de água.
Os resultados das pesquisas foram publicados em revistas internacionais renomadas, como Food Research International e Food Chemistry, e mostram alta precisão na identificação de adulterações, além de permitir o rastreamento da origem de cachaças produzidas no Brejo Paraibano, fortalecendo a cadeia produtiva local.
Além dos equipamentos de espectroscopia, foram desenvolvidos kits colorimétricos para detecção de metanol em bebidas destiladas. Esses kits, que indicam a presença de metanol em cerca de 15 a 20 minutos, permitem uma fiscalização mais ágil. Em fevereiro de 2026, o Governo da Paraíba e a UEPB apresentaram esses kits durante uma cerimônia no Procon Estadual, em João Pessoa, e entregaram os primeiros 200 kits, com planos para expandir a distribuição e intensificar a fiscalização no estado.
Os kits são acompanhados por um aplicativo que fornece orientações para o uso correto da ferramenta, destinado exclusivamente a técnicos capacitados, não sendo comercializado ao público. Esta medida reforça o caráter preventivo das políticas públicas de defesa do consumidor, especialmente em períodos de grande movimentação de pessoas, como o Carnaval e o São João.
O desenvolvimento dessa tecnologia na UEPB foi possível graças a investimentos do Tesouro Estadual, através de projetos da Secties/Fapesq focados na transferência de tecnologias portáteis de baixo custo, identificação da origem geográfica de alimentos e bebidas paraibanas, automação e instrumentação analítica para controle de qualidade da cachaça produzida no estado, com suporte da estrutura laboratorial da UEPB.
Para o secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior, Cláudio Furtado, a entrega dos kits demonstra a importância de alinhar a produção científica às necessidades da sociedade, destacando o impacto real da ciência produzida na Paraíba na vida das pessoas.
A inovação desenvolvida na Paraíba atraiu a atenção de instituições nacionais e abriu discussões sobre sua aplicação em políticas públicas. A possibilidade de uso em fiscalização, na indústria e em linhas de produção torna essa tecnologia estratégica não apenas para a Paraíba, mas para todo o país. Os pesquisadores visam ampliar a disponibilidade da solução e avançar na transferência de tecnologia, permitindo que órgãos de vigilância, distribuidoras, bares, restaurantes e outros setores possam contar, no futuro, com ferramentas mais rápidas e acessíveis.
Durante o São João, quando a cultura, a economia criativa e o turismo movimentam a Paraíba, a divulgação dessa tecnologia reforça uma mensagem essencial: investir em ciência é também investir em prevenção, segurança, desenvolvimento regional e proteção da vida. A pesquisa financiada pela Fapesq demonstra que soluções desenvolvidas nas universidades públicas podem sair dos laboratórios e beneficiar a sociedade, transformando conhecimento em cuidado concreto com a população.