A literatura produzida por autores negros desempenha um papel crucial na explicação da permanência histórica do racismo no Brasil e na disputa pelo sentido da narrativa nacional, segundo a escritora Ana Maria Gonçalves. A autora do renomado romance ‘Um Defeito de Cor’ compartilhou suas perspectivas em uma conversa com a Agência Brasil durante sua passagem por Brasília no último sábado.
Primeira mulher negra a se tornar imortal da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria foi a convidada especial da 6ª edição do encontro Julho das Pretas que Escrevem no Distrito Federal, parte do Festival Latinidades. Ela ressaltou que ‘Um Defeito de Cor’ e outras obras têm ampliado a compreensão social sobre o racismo e fortalecido debates como o das políticas de cotas raciais, que começaram a ser implementadas em 2006, ano do lançamento do seu livro.
O romance, uma narrativa de 952 páginas, conta a saga de Kehinde, uma mulher negra sequestrada aos oito anos no Reino do Daomé e trazida para ser escravizada na Bahia. Considerado um dos romances mais importantes da literatura brasileira contemporânea, o livro inspirou o samba-enredo da escola de samba Portela no carnaval de 2024. Ana Maria Gonçalves destaca que narrativas como essa oferecem uma compreensão da história do país a partir de perspectivas marginalizadas.
A escritora também rejeita o rótulo de contra-história para suas obras, afirmando que ‘Um Defeito de Cor’ representa a história do Brasil sob a ótica de uma mulher negra, e não como uma versão alternativa ou contraposição à narrativa oficial. Desde sua eleição para a cadeira 33 da ABL, Ana Maria enfatiza que sua chegada à academia não foi solitária, destacando a importância de figuras como Conceição Evaristo na promoção da representatividade negra.
Durante o Festival Latinidades, Ana Maria se reuniu com mulheres negras para discutir o impacto atual dessa rede no mercado literário brasileiro. Ela cita Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista negra do Brasil, e observa que, desde então até 2006, apenas oito mulheres negras publicaram romances no país. A visibilidade crescente de escritores negros nas últimas décadas tem impulsionado mudanças no mercado editorial.
A jornalista Waleska Barbosa, mediadora da conversa no festival, reconhece avanços no mercado editorial, mas aponta desafios como o alto custo de publicação e a permanência de escritores negros em espaços ainda marcados pelo racismo. Ela cita o exemplo da escritora Lilia Guerra, que enfrentou um episódio de racismo ao ser acusada injustamente de roubo durante a Flip. Esses incidentes refletem as contradições enfrentadas por autores negros no cenário literário atual.
