Acordo Mercosul-UE está alinhado a objetivos ambientais, diz ministra

A aprovação, pela Comissão Europeia, do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia foi recebida pelo governo brasileiro como um marco político e econômico com forte dimensão ambiental. A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, divulgou nota em que comemora o aval europeu e afirma que o texto negociado está em sintonia com a agenda climática e de desenvolvimento sustentável defendida pelo Brasil. Na visão da ministra, o resultado das negociações consagra um entendimento considerado capaz de conciliar expansão do comércio, proteção da natureza e combate à mudança do clima.

Marina destaca que o avanço nas tratativas foi viabilizado, em grande medida, pela mudança de rumo da política ambiental brasileira nos últimos anos, com foco no combate ao desmatamento e na recuperação da credibilidade internacional do país. Segundo ela, a sinalização de compromisso do governo com metas climáticas e preservação de biomas, como Amazônia e Cerrado, contribuiu para destravar um impasse que se arrastava havia um quarto de século entre os dois blocos. A ministra lembra que, no período recente, o país conseguiu, simultaneamente, reduzir o desmatamento e ampliar de forma expressiva a inserção do agronegócio em novos mercados, o que, na avaliação do governo, evidenciou a possibilidade de crescer preservando.

Depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo Mercosul–União Europeia é apresentado pelos governos como a formação da maior zona de livre comércio do mundo, integrando duas das principais regiões econômicas do planeta, com centenas de milhões de consumidores e um produto interno bruto somado de dezenas de trilhões de dólares. A aprovação pelas instâncias europeias abre caminho para a assinatura formal do tratado, passo considerado decisivo para que as novas regras tarifárias e regulatórias comecem a ser internalizadas. Para o Brasil, a expectativa é de aumento de exportações, atração de investimentos e maior integração às cadeias globais de valor.

No centro da reação positiva do Ministério do Meio Ambiente estão as cláusulas ambientais e climáticas do acordo. A nota oficial ressalta que o texto reafirma compromissos de sustentabilidade assumidos pelos países, incorporando princípios consagrados em negociações multilaterais, como o das responsabilidades comuns, porém diferenciadas – segundo o qual todas as nações têm deveres na proteção do clima, mas em graus distintos, conforme sua contribuição histórica para o problema e sua capacidade de resposta. O documento também destaca o respeito à soberania de cada país para definir seus próprios padrões ambientais, o que, na leitura do governo brasileiro, assegura espaço para políticas nacionais de proteção de florestas e uso do solo sem impor regras externas unilaterais.

Outro ponto enfatizado pela pasta é o avanço em instrumentos econômicos ligados às agendas de clima e biodiversidade. O texto do acordo abre a possibilidade de valorizar os serviços ecossistêmicos prestados pela natureza, como regulação do regime de chuvas, captura de carbono e conservação da biodiversidade, criando bases para mecanismos de remuneração e financiamento ambiental. Na prática, isso pode significar novas fontes de recursos para projetos de conservação, restauração florestal e transição para modelos produtivos de baixa emissão, especialmente em regiões sensíveis como a Amazônia.

A promoção de produtos da bioeconomia e de bens considerados sustentáveis é outro eixo celebrado pelo Ministério do Meio Ambiente. O acordo prevê estímulos ao comércio de itens oriundos de cadeias produtivas que combinem uso racional dos recursos naturais, geração de renda local e redução de impactos ambientais. Ao mesmo tempo, inclui a obrigação de fornecimento de informações mais detalhadas sobre desmatamento e sobre o cumprimento da legislação ambiental pelos países exportadores. Na avaliação do governo brasileiro, essa exigência é vista como incentivo à regularização ambiental e à rastreabilidade de cadeias produtivas, em especial no agronegócio.

As salvaguardas embutidas no texto são apontadas pela equipe de Marina Silva como uma espécie de barreira preventiva contra possíveis efeitos negativos da intensificação do comércio sobre o meio ambiente. A proposta é que o aumento de fluxos comerciais não resulte em maior pressão por derrubada de florestas, degradação de ecossistemas ou emissão de gases de efeito estufa, mas, ao contrário, contribua para a consolidação de padrões de produção mais limpos. Para isso, o acordo associa ganhos tarifários e de acesso a mercados a compromissos concretos de respeito à legislação ambiental e às metas climáticas assumidas internacionalmente.

Ao atribuir o desfecho favorável das negociações à confiança na condução da política ambiental brasileira, Marina Silva também liga o acordo ao projeto mais amplo do governo de recolocar o país como protagonista na agenda global do clima. O discurso oficial é de que o Brasil volta a ser visto como parceiro confiável em negociações multilaterais e em acordos comerciais que incorporam metas de descarbonização, controle do desmatamento e proteção da biodiversidade. Nesse contexto, o tratado Mercosul–União Europeia é apresentado não apenas como um pacto econômico, mas como vitrine da estratégia de combinar abertura comercial, inclusão de setores produtivos e compromisso com a sustentabilidade.

Ainda que o texto final do acordo permaneça sujeito a etapas formais de assinatura e ratificação, a leitura no Ministério do Meio Ambiente é de que a aprovação europeia consolida uma inflexão no modo como o comércio internacional vem lidando com temas ambientais. Para o governo, trata-se de exemplo de que cláusulas verdes podem deixar de ser mero adendo e passar a ocupar papel central na arquitetura dos grandes tratados, com impacto direto sobre decisões de investimento, padrões produtivos e estratégias de desenvolvimento de longo prazo dos países envolvidos.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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