Estudo da Anfavea alerta para impactos severos caso Brasil substitua produção automotiva completa por montagem de kits importados. A substituição da fabricação integral de veículos pela simples montagem de kits CKD (completamente desmontado) e SKD (semi desmontado) pode eliminar 69 mil empregos diretos, o equivalente a 75% da força de trabalho atual do setor. Além disso, seriam afetados outros 227 mil postos indiretos ao longo da cadeia automotiva.
O levantamento estima uma perda econômica de até R$ 103 bilhões para os fabricantes de autopeças e uma redução de aproximadamente R$ 26 bilhões na arrecadação de tributos em apenas um ano. As perdas nas exportações de veículos chegariam a R$ 42 bilhões anuais, prejudicando a balança comercial do país.
No modelo CKD, o veículo é importado totalmente desmontado, passando por sistemas de soldagem, pintura e integração de componentes no Brasil. No regime SKD, o veículo chega quase pronto, em grandes conjuntos, exigindo uma montagem local mais simples com menor complexidade industrial. A montadora chinesa BYD opera no Brasil principalmente no modelo SKD, utilizando sua fábrica de Camaçari, na Bahia, inaugurada em 2025.
A discussão ganhou intensidade após o governo federal autorizar, em meados de 2025, uma cota adicional de US$ 463 milhões com Imposto de Importação zerado para veículos elétricos e híbridos desmontados. O benefício, válido até 31 de janeiro de 2026, favoreceu principalmente a BYD e gerou críticas de montadoras tradicionais como Toyota, General Motors, Volkswagen e Stellantis, representadas pela Anfavea.
Com o prazo de vencimento se aproximando, a Anfavea pressionou o governo federal para que não renovasse o benefício de isenção de Imposto de Importação sobre veículos eletrificados desmontados. O presidente da entidade, Igor Calvet, enfatiza que o problema não reside nos processos CKD e SKD em si, mas na manutenção de incentivos sem exigência de agregação de valor local. Muitas montadoras iniciaram suas operações no Brasil através desses modelos, recolhendo impostos devidos e estruturando gradualmente a produção local.
Calvet argumenta que o incentivo prolongado ameaça a sobrevivência da indústria de alta complexidade e a geração de empregos qualificados. Modelos produtivos simplificados não desenvolvem cadeias locais, não geram o mesmo nível de empregos e não deixam o mesmo valor agregado no país. A entidade defende um ambiente competitivo justo, com regras iguais para todos.
A própria Anfavea reconhece que o cenário de perda total de 69 mil empregos é extremo e pressupõe uma mudança abrupta no modelo produtivo. Segundo Calvet, esse cenário é hipotético e inviável, considerando contratos existentes e investimentos realizados, mas precisava-se criar um teto para demonstrar o risco potencial.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou que o sistema de cotas para importações de CKD e SKD termina em janeiro de 2026 e não há pedido do setor para renovação da medida. A BYD ainda não se manifestou publicamente sobre o assunto.
