Após 7 anos, tragédia de Brumadinho será examinada na Justiça

Era uma sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, quando Nayara Porto, então com 27 anos, preparava um pudim para o fim de semana, a sobremesa favorita do marido, Everton Lopes Ferreira, de 32 anos. Após colocar o doce no forno, ela ouviu a vizinha conversando com uma tia sobre a barragem da Vale que havia rompido, em referência à barragem de rejeitos da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais.

“Eu fiquei um pouco sem entender. Depois ela me chamou e perguntou se meu marido estava em casa. Eu falei que não estava, estava trabalhando, aí ela foi e me contou o que tinha acontecido”, recorda Nayara em entrevista ao programa Natureza Viva, da Rádio Nacional, emissora da Empresa Brasil de Comunicação. “Aí foi um desespero total.”

Começou aí uma agonia que se estenderia por horas. Nayara tentou ligar repetidas vezes para Everton, mas o telefone nem chamava mais. Desesperada, ela contatou amigos dele que trabalhavam no local. Um deles, que conseguiu escapar correndo da lama de rejeitos, lhe disse: “Oh Nayara, ora, pede a Deus.” O armazém, onde Everton atuava no almoxarifado, havia sido completamente destruído pela avalanche de mais de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério que vazaram pela bacia do Rio Paraopeba.

O rompimento ocorreu por volta do meio-dia, sem o alarme de sirenes que poderia ter alertado os trabalhadores em horário de almoço. A lama tóxica avançou a 60 quilômetros por hora, soterrando o refeitório da mineradora, prédios administrativos e vilarejos próximos. No total, 272 pessoas morreram, a maioria funcionários da Vale, em um dos maiores desastres ambientais e industriais do Brasil, considerado o maior acidente de trabalho do país e o segundo maior do século XXI no mundo. Três vítimas ainda permanecem desaparecidas.

Sete anos depois, em 2026, a dor das famílias persiste, agravada pela ausência de punições criminais. Passados 2.557 dias, ninguém foi responsabilizado judicialmente pelo crime. Uma série de audiências na Justiça Federal, conduzida pela juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima, pode levar o caso a júri popular. Quinze réus estão na mira: 11 ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale, privatizada em 1997, e quatro funcionários da TÜV SÜD, empresa alemã contratada para atestar a estabilidade da barragem, construída em 1976 pelo método de alteamento a montante, conhecido por riscos elevados.

Causas apontadas incluem liquefação dos rejeitos, falhas no monitoramento, na fiscalização e na gestão de riscos, lições de um desastre anterior, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015, também envolvendo a Vale. A empresa perdeu R$ 51 bilhões em valor de mercado e enfrentou uma crise de reputação, com impactos no turismo, no comércio local e na rotina da região, afetando 24 mil pessoas.

A Vale destaca avanços na reparação. Em 2021, assinou o Acordo Judicial de Reparação Integral com o governo de Minas Gerais, Ministérios Públicos e Defensoria Pública, no valor estimado de R$ 37,7 bilhões. Até dezembro de 2025, executou 81% das obrigações, incluindo R$ 5 bilhões para recuperação ambiental da bacia do Paraopeba, abastecimento de água, diversificação econômica em Brumadinho e 26 municípios afetados, além de indenizações individuais e programas extrajudiciais. Medidas como monitoramento da qualidade da água mostram recuperação progressiva, especialmente em períodos de estiagem, e realocações preventivas em áreas de risco. A companhia criou diretorias especiais, comitês independentes para segurança de barragens e hotsites para transparência.

Ainda assim, atingidos e familiares cobram justiça. A Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão (Avabrum) organiza atos memoriais, como o de 25 de janeiro de 2026, às 11h, no Letreiro de Brumadinho. Comunidades como a da Jangada realizam caminhadas, abaixo-assinados e documentários contra novas operações minerárias, exigindo estudos atualizados e o fechamento definitivo de minas próximas. Sindicatos e movimentos sociais reforçam a luta por fiscalização rigorosa, planos de evacuação eficazes e o fim da impunidade, em meio a preocupações com o término de auxílios emergenciais.

A tragédia expôs fragilidades na mineração brasileira, impulsionando aprendizados como aprimoramento de sirenes, gestão de riscos e comunicação de perigos às comunidades. Para viúvas como Nayara, o pudim no forno e a espera pelo marido que nunca voltou seguem como símbolo de uma ferida aberta.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)