Após cinco anos de vacinação, covid recua, mas ainda preocupa

# Vacinação no Brasil: entre avanços e desafios persistentes na imunização

A vacinação no Brasil enfrenta um cenário contraditório: o país avança na retomada de coberturas vacinais após anos de queda, mas desigualdades regionais profundas e abandono vacinal persistem como obstáculos à proteção da população.

O Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações e do Fundo das Nações Unidas para a Infância, revelou que em 2023, apesar dos avanços observados, 80% ou mais da população brasileira ainda vivia em municípios que não atingiram as metas de cobertura vacinal estabelecidas pelo Programa Nacional de Imunizações para a maioria das vacinas analisadas individualmente. Nenhuma das vacinas infantis do calendário nacional conseguiu atingir a meta de cobertura em todos os estados naquele ano.

A queda contínua nas coberturas vacinais infantis começou a partir de 2015, intensificando-se após 2020, possivelmente devido à pandemia de Covid-19. Houve recuperação iniciada em 2022 e acelerada em 2023, mas o progresso foi insuficiente diante da dimensão do desafio.

As vacinas que exigem múltiplas doses enfrentam desafios particulares. A tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, apresenta altas taxas de evasão entre a primeira e a segunda dose. Em alguns estados, esse abandono ultrapassa 50%, comprometendo a eficácia da imunização e aumentando o risco de reintrodução de doenças controladas. Em 2014, todos os estados cumpriam a meta de 95% de cobertura para a primeira dose dessa vacina. Uma década depois, em 2023, apenas quatro estados alcançaram essa meta, com 14 estados apresentando cobertura inferior a 50% para o esquema completo.

A situação da poliomielite é igualmente alarmante. Desde 2016, o Brasil não atinge a meta de 95% de cobertura vacinal contra a doença. Em 2023, menos de 20% da população brasileira vivia em municípios que cumprem a meta de vacinação contra poliomielite, um retrocesso considerável comparado aos índices entre 60% e 75% observados na década de 2001 a 2010.

A vacinação contra meningococo C atingiu patamares críticos: nenhum estado cumpriu a meta de cobertura entre 2021 e 2023. Em 2023, quase 90% da população brasileira residia em municípios que não alcançaram a meta, um aumento significativo em relação aos 25% registrados em 2011.

A varicela também apresenta índices preocupantes. Em 2023, apenas 3% da população brasileira vivia em municípios que atingiam 95% de cobertura vacinal em crianças de um ano de idade. Apesar dessa vacina nunca ter atingido a meta pretendida pelo Programa Nacional de Imunizações a nível nacional, esse é o menor percentual desde o início da vacinação contra a doença, iniciada em 2013.

Quanto à vacinação contra HPV em adolescentes, a cobertura da segunda dose manteve índices baixos em 2023, abaixo de 80% para meninas e abaixo de 50% para meninos. A adesão do público masculino é notavelmente baixa. As coberturas para a primeira dose em adolescentes do sexo masculino que completaram 15 anos ficaram em torno de 65% a partir de 2021, enquanto a segunda dose manteve-se em torno de 50%. Acre, Pará, Amapá e Rio de Janeiro destacam-se negativamente pelos baixos índices em uma ou ambas as doses.

A cobertura da vacina BCG, historicamente com bons índices devido à aplicação em dose única, caiu significativamente a partir de 2019, quando apenas três unidades da federação atingiram a meta de vacinação, e onze apresentaram índices abaixo de 80%.

As desigualdades regionais revelam-se extremamente acentuadas. A região Norte demonstra ser a mais vulnerável do país, concentrando os menores índices de cobertura para sarampo, caxumba, rubéola, varicela e poliomielite. Estados como Acre, Amapá, Pará, Rondônia e Roraima apresentam os piores resultados em abandono vacinal e na aplicação de segundas doses.

Contudo, estados ricos e populosos também apresentam resultados preocupantes. O Rio de Janeiro, terceira maior população e segundo PIB do país, não atingiu as metas de cobertura vacinal do Programa Nacional de Imunizações para nenhuma das doses analisadas de diversas vacinas, como sarampo, pneumocócica, meningocócica C e poliomielite, frequentemente ficando abaixo das médias nacionais. Em 2023, as coberturas específicas do estado incluem 36,9% para crianças que receberam a segunda dose de sarampo com um ano, 65,1% para hepatite A e 39,4% para varicela.

Mesmo quando a média estadual parece razoável, enormes variações aparecem entre municípios vizinhos. Em estados como Amazonas, Pará, Maranhão e Rio Grande do Sul, a cobertura pode variar de 95% a menos de 50% entre municípios adjacentes. Esses bolsões de baixa cobertura criam zonas vulneráveis ao ressurgimento de doenças e comprometem a eficácia da imunização coletiva.

Menos de um terço dos municípios brasileiros (32%) conseguiu cumprir a meta de cobertura para os quatro imunizantes que compõem o Programa de Qualificação das Ações de Vigilância em Saúde: pentavalente (terceira dose), poliomielite (terceira dose), pneumocócica 10-valente (segunda dose) e tríplice viral (primeira dose com um ano de idade).

No que diz respeito à vacinação contra Covid-19 e influenza, os dados mostram um cenário diferenciado. Pesquisa conduzida entre março e junho de 2024 em 133 cidades sentinela revelou alta cobertura geral: 90,2% para pelo menos uma dose de Covid-19 e 82,6% para influenza. No entanto, diferenças marcantes foram observadas. A vacinação contra Covid-19 aumentou com a idade, foi maior nas mulheres do que nos homens, e maior nas pessoas de cor branca. Além disso, esteve fortemente relacionada a altos níveis de escolaridade e renda.

As razões para a não vacinação incluem falta de confiança na eficácia da vacina, preocupações com efeitos colaterais e falta de acesso aos serviços de saúde. Populações indígenas, pessoas evangélicas e aquelas com menor nível socioeconômico apresentaram menores taxas de vacinação.

Reconhecendo esses desafios, o Governo Federal lançou o movimento “Vacina Sempre Brasil”, que tem foco prioritário na retomada das altas coberturas vacinais do país. A mobilização inclui vacinação contra Covid-19 e outras imunizações do Calendário Nacional de Vacinação em várias etapas, sendo considerada uma das prioridades para fortalecer o Sistema Único de Saúde e a cultura de vacinação no Brasil.

O Anuário VacinaBR representa o primeiro documento estatístico abrangente a oferecer um panorama robusto e confiável sobre a cobertura vacinal no Brasil, consolidando séries históricas sobre vacinação infantil através do cruzamento de bancos públicos de dados como DataSUS e InfoMS com dados populacionais do IBGE e Sinasc. A publicação funciona como base sólida para análises técnicas e tomada de decisões oficiais, ampliando a transparência e o entendimento sobre a situação da vacinação no território nacional. Sua disponibilização gratuita busca subsidiar a construção de políticas públicas de imunização cada vez mais eficazes, identificando onde existem desigualdades regionais e estruturais que precisam ser enfrentadas para recuperar a cultura de vacinação que historicamente caracterizou o Brasil.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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