Assembleia Nacional da Venezuela anuncia libertação de presos

O anúncio da libertação de venezuelanos e estrangeiros presos pelo governo bolivariano marca um novo capítulo na crise política da Venezuela e é apresentado pelas autoridades como um gesto de pacificação em meio à crescente tensão com os Estados Unidos. Sem detalhar quantas pessoas foram soltas, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, afirmou que os processos de libertação começaram imediatamente e devem alcançar um “número importante” de detidos, tanto venezuelanos quanto estrangeiros, em um movimento classificado por ele como “gesto unilateral de paz”.

Rodríguez, um dos principais líderes do chavismo e irmão da presidenta interina Delcy Rodríguez, afirmou que a medida não resulta de qualquer negociação com setores que o governo considera “extremistas”, mas integra uma estratégia mais ampla de consolidação da convivência interna e de fortalecimento da união nacional diante do que o governo descreve como agressões externas recentes. Segundo ele, o Executivo mantém diálogo apenas com instituições e partidos que, na avaliação do chavismo, respeitam a Constituição venezuelana, deixando de fora grupos opositores que questionam a legitimidade do regime.

O anúncio ocorre em um momento de forte instabilidade, após a operação dos Estados Unidos que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, no sábado, dia 3. Desde então, o país passou a ser comandado interinamente por Delcy Rodríguez, que convocou reuniões com seus ministérios para definir a linha de ação do governo diante da crise aberta com Washington. Em encontro recente com integrantes do Executivo, Delcy afirmou que a estabilidade política da Venezuela depende, em grande medida, do resgate de Maduro e de Cilia Flores, apresentados pelo governo como vítimas de uma ação ilegítima de força por parte dos Estados Unidos.

A presidenta interina também reiterou o discurso de defesa da soberania e da integridade territorial, afirmando que cabe ao governo preservar a paz interna e garantir a continuidade do projeto bolivariano, iniciado pelo ex-presidente Hugo Chávez. Em suas declarações, Delcy apontou a unidade das forças revolucionárias como condição indispensável para enfrentar a pressão externa e manter o que descreve como governo democrático diante da agressão estrangeira.

Embora o governo não tenha esclarecido quem exatamente está sendo beneficiado pelas solturas nem sob quais condições os detidos deixam a prisão, a libertação de presos era uma reivindicação frequente de setores da oposição e de entidades de direitos humanos. Organizações independentes relatam, há anos, a existência de presos por motivos políticos no país, muitos deles detidos em meio a protestos contra o chavismo, além de sucessivas denúncias de violações de garantias fundamentais.

No discurso oficial, a libertação de presos é apresentada como parte de uma estratégia mais ampla de pacificação e de recomposição do pacto interno em torno do projeto bolivariano, em um momento em que o governo busca responder às pressões internacionais, reorganizar sua base política após o afastamento forçado de Maduro e evidenciar disposição para alguns gestos considerados simbólicos, mas cuidadosamente controlados. Ao classificá-la como medida unilateral, o governo procura sustentar a narrativa de que ainda detém a iniciativa política, mesmo diante da situação inédita de ter seu principal líder sob custódia de uma potência estrangeira.

O gesto do governo bolivariano combina mensagem voltada ao público interno e ao público externo: internamente, busca indicar um alívio parcial na repressão e uma abertura limitada em direção a setores críticos, desde que se mantenham dentro dos parâmetros estabelecidos pelo chavismo; externamente, procura projetar a imagem de um país que, apesar da crise e das acusações mútuas com os Estados Unidos, afirma agir em nome da paz, da estabilidade e da defesa da soberania.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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