Ativistas denunciam ‘blackface’ em fantasias de carnaval

# Blackface de Cabelo: Ativistas Denunciam Prática Racista no Carnaval

A página Samba Abstrato, administrada por ativistas negros há quase dez anos, ganhou destaque ao denunciar o uso de perucas e penteados afro por pessoas brancas no carnaval, batizando a prática de “blackface de cabelo”. A expressão questiona o que os ativistas veem como uma forma racista de transformar características físicas historicamente discriminadas, como os cabelos crespos, em meros adereços festivos, semelhante às fantasias de “nega maluca” ou de “indígena”, que ridicularizam identidades raciais.

Com tom cômico e satírico nas redes sociais, a Samba Abstrato aponta o branqueamento da festa momesca como um problema central. Os ativistas criticam a escolha recorrente de mulheres brancas como passistas, mesmo quando não dominam o samba, frequentemente acompanhada de simulacros de cabelos cacheados ou crespos. Essa priorização tira o protagonismo das mulheres negras das comunidades, reforçando um processo de exclusão simbólica.

O blackface tradicional surgiu nos Estados Unidos no século XIX, quando atores brancos pintavam a pele com graxa, carvão ou verniz, exageravam traços como boca e nariz, e representavam pessoas negras de forma estereotipada, preguiçosa e degradante em espetáculos minstrel. A prática se estendeu ao cinema e à televisão, perpetuando preconceitos e estereótipos racistas, negando aos negros o direito de se representarem. No Brasil, o “blackface de cabelo” segue essa lógica ao depreciar o cabelo afro, taxado por décadas como “ruim” ou “feio”, levando à humilhação e exclusão de mulheres negras em empregos e espaços sociais.

Em entrevista coletiva à Agência Brasil, a diretoria da Samba Abstrato refletiu sobre a contradição: durante o ano todo, muitas defendem a estética branca, com cabelos lisos vistos como “bonitos” e “adequados”, mas no carnaval se fantasiam de “mulher preta”. “Enquanto mulheres negras são despedidas do emprego, discriminadas, impedidas de trabalhar, seja pelo crespo natural ou em outro estilo, como tranças, enquanto lutamos pela nossa vida real, outras fazem da nossa estética fantasia. Chega domingo de carnaval, último dia, tomam banho, voltam a alisar”, disseram.

O professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, diretor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisador sobre racismo, classifica o fenômeno como “aniquilamento social e cultural” da população negra. Ele o liga ao pós-abolição, que negou a presença negra na construção do país, evidenciando não só violência física, mas um apagamento simbólico em espaços como o carnaval televisionado. “É a mesma proposta do pós-abolição, de negar a presença negra na construção desse país. Os negros fundaram as bases do Estado brasileiro em uma situação muito adversa”, afirmou.

Diante das denúncias, o Ministério da Igualdade Racial lançou a campanha “Sem Racismo, o Carnaval Brilha Mais”, com materiais educativos distribuídos nas festas para alertar sobre práticas discriminatórias, injúria racial e fantasias ofensivas. A iniciativa incentiva denúncias via Disque 100 e Ouvidoria do ministério, pelo endereço ouvidoria@igualdaderacial.gov.br. Tiago Santana, secretário de Combate ao Racismo do Ministério da Igualdade Racial, afirmou: “Não cabem mais fantasias depreciativas sobre a cultura negra, religiões afro, personagens negras, muito menos mulheres negras. Isso não dá mais. Não é esse tipo de cultura de carnaval que o brasileiro quer”.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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