A cidade do Rio de Janeiro viveu um dos dias de maior tensão de sua história, com os desdobramentos de uma megaoperação policial contra o Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte, que registrou 64 mortes, entre suspeitos, policiais e civis atingidos por tiros em meio aos confrontos. Além das dezenas de mortos, dezenas de feridos e mais de 100 presos, o desdobramento mais severo da operação foi sentido por milhares de estudantes, professores e funcionários da cidade, com o cancelamento de aulas em escolas municipais nas áreas afetadas e suspensão de atividades em universidades públicas em toda a região metropolitana.
A Secretaria Municipal de Educação informou que 31 escolas do Alemão e 17 da Penha tiveram aulas suspensas. No nível superior, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) suspendeu as atividades do período noturno em todas as unidades da região metropolitana. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) orientou alunos, professores e funcionários a evitar deslocamentos para o campus da Ilha do Fundão, onde grande parte dos cursos é concentrada, e cancelou as aulas noturnas em todos os campi da capital e de Duque de Caxias. A recomendação para quem já estava no local foi permanecer abrigado nos prédios.
A Unirio anunciou o cancelamento das atividades presenciais, o fechamento do restaurante universitário para o jantar e a restrição do transporte entre campi, dando direito ao abono de faltas para quem não puder comparecer devido à insegurança no deslocamento. A Universidade Federal Fluminense (UFF) também recomendou a suspensão de aulas e atividades acadêmicas, pedindo que a comunidade acadêmica evite circular nas regiões mais afetadas e busque abrigo seguro.
O município do Rio declarou o estágio 2 de atenção, o que significa risco de ocorrência de alto impacto, e vias expressas como a Linha Amarela, fundamental para o trânsito entre a Zona Sul, Zona Oeste e Norte, foram interditadas por ordem dos criminosos, intensificando o caos urbano. Ônibus e vias secundárias próximas às comunidades também ficaram bloqueados, forçando moradores a alterar a rotina e ampliando o temor de tiroteios e bombardeios.
A operação, batizada de “Contenção”, mobilizou cerca de 2.500 agentes das polícias Civil, Militar, Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Centro de Operações e Resiliência, além de helicópteros, drones, blindados e equipes de salvamento. O aparato bélico empregado reflete a gravidade da situação, com criminosos reagindo com barricadas em chamas, drones adaptados para ataque e resistência armada feroz.
O governador Cláudio Castro afirmou que a operação é uma resposta integrada ao que ele denomina “narcoterrorismo”, diante de provocações dos criminosos para ampliar o caos urbano. No entanto, o custo humano foi trágico: quatro polícias mortos, sendo dois civis e dois militares do Bope, além de três civis atingidos, dois deles sem relação com o crime. Entre os presos, há integrantes oriundos de facções de outros estados, o que mostra a dimensão das redes criminosas atuantes na cidade.
Para além do saldo trágico imediato, a cidade assistiu ao fechamento de escolas e universidades, à interdição de vias, ao deslocamento forçado de milhares de pessoas e à sensação de que o poder público não consegue responder com a devida coordenação a situações de emergência sem causar interrupções severas na vida cotidiana. Enquanto as autoridades argumentam que o Estado precisa retomar o controle territorial, a população sofre com a insegurança, o medo de sair de casa e a incerteza quanto ao retorno à normalidade.
