Uma marca de tiro feita de pintura corporal e eletrochoques simbolizados por lantejoulas prateadas na perna de pau eram parte da fantasia de carnaval da pernalta e acrobata Luciana Peres, de 46 anos. Ela desfilou no Bloco Mulheres Rodadas, nesta quarta-feira (18), na zona sul do Rio de Janeiro, e fez referência às tentativas de assassinato sofridas pela farmacêutica Maria da Penha Fernandes, em 1983. Mais de dez anos depois, em 2006, a vítima emblemática da violência doméstica no país, praticada pelo ex-marido, deu nome à lei federal que tipifica o crime no país.
“Eu não consegui pensar em outro assunto que não fosse a luta pela vida das mulheres”, disse. “Tenho refletido muito sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha, em 2026 e, em contraposição, o recorde de feminicídio, em 2025”, comentou a artista e produtora cultural.
Ano passado, o Brasil contabilizou 1.518 vítimas do crime, segundo o Ministério da Justiça e da Segurança Pública. “A gente precisa de políticas públicas, senão, todos os dias, mulheres vão morrer”, completou.
Desde 2015, o Mulheres Rodadas discute o assédio, a violência doméstica e o feminicídio por meio de fantasias, placas e performances. Ao tocar a música Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, por exemplo, as pernaltas simulam ainda a violência transfóbica, responsável também por colocar o país no topo do ranking de assassinatos de transexuais. Tintas vermelhas e acrobacias imitam agressões.
Há outras performances ao longo do desfile pelas ruas do Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro, que fazem alusão à solidariedade entre as mulheres. Há momentos em que, uma puxa a outra do chão, simbolizando a união.
Para destacar a força das mulheres, a lista de músicas executadas pelas ritmistas é preparada cuidadosamente, explica a regente e coordenadora de percussão, Simone Ferreira. “Escolhemos intérpretes e compositoras mulheres ou músicas que exaltam a condição feminina casadas com as performances das pernaltas”.
Na lista estão marchinhas clássicas, como Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga, Vai, Malandra, de Anita, Ama sofre e chora, de Pablo Vittar, Tieta, de Luiz Caldas, Vermelho, de Fafá de Belém, além de composições internacionais icônicas, como Toxic, de Britney Spears e Girls Just Want Have Fun, de Cyndi Lauper.
Este ano, o bloco atraiu turistas e artistas de fora do país. A pernalta francesa Lucie Cayrol, de Toulouse, aproveitou para homenagear a advogada franco-tunisiana Gisèle Halimi. Ela destacou o papel de Halimi na despenalização do aborto naquele país, em 1975. A França, no entanto, segue enfrentando a violência doméstica.
Cayrol lembrou do caso de Gisèle Pelicot, que acaba de lançar um livro de memórias. Ao longo de dez anos, Pelicot foi dopada pelo ex-marido que convidou mais de 50 homens desconhecidos para estuprá-la. O agressor foi condenado à prisão pela Justiça daquele país em 2024.
A coordenadora do bloco, a jornalista Renata Rodrigues, explica que, mesmo depois de dez anos de fundação, o tema principal permanece atual. “Nós somos um dos poucos coletivos, no Rio, que discute a violência contra a mulher no carnaval”, disse.
Esse problema, completou, está longe de ser superado. Por isso, Renata também cobra apoio do poder público e da iniciativa privada para passar a mensagem. No desfile, o recado chega para todas e todos. O folião Raul Santiago, destacou a necessidade de compromisso dos homens com o fim do problema. “Os homens precisam estar junto, precisam mudar a atitude e a forma de pensar, ser antimachista, entender os lugares sociais e defender a igualdade”, afirmou.
