Brasil barra funcionários de Trump e expõe escalada de pressões americanas sobre soberania nacional

Brasil barra funcionários de Trump e expõe escalada de pressões americanas sobre soberania nacional

Negativa de vistos a emissários do Departamento de Estado impede visita planejada para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro às vésperas das eleições de outubro

O Brasil negou, na sexta-feira (25), os vistos de dois funcionários do governo do presidente Donald Trump que planejavam visitar o país para lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro, a menos de três meses das eleições presidenciais de outubro. O episódio é o mais recente de uma série de pressões americanas sobre Brasília que, nos últimos doze meses, passou por sanções econômicas, uso de legislação estrangeira contra um ministro do Supremo Tribunal Federal e agora uma tentativa aberta de moldar o resultado de um pleito soberano.

FOTO: AGÊNCIA BRASIL

Segundo dois funcionários brasileiros com conhecimento do caso, que falaram à agência Reuters sob condição de anonimato em razão da sensibilidade do assunto, a delegação americana incluiria Riley M. Barnes, subsecretário-assistente do Departamento de Estado para o Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, seu vice. A rejeição dos vistos foi baseada em “evidências que apontam para uma nova tentativa de explorar politicamente a situação e desestabilizar o sistema eleitoral”, segundo um dos funcionários.

Mais tarde no sábado, um porta-voz do Departamento de Estado americano afirmou que Barnes e Samson visitariam Brasília entre os dias 27 e 30 de julho para se reunir com autoridades do governo, lideranças religiosas e representantes da sociedade civil, com o objetivo de debater “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão”. O porta-voz rejeitou qualquer sugestão de que a visita fosse uma “manobra” para solapar as eleições brasileiras, descrevendo o planejamento como “rotineiro” e “consistente com o mandato estatutário” do Bureau.

O pleito de outubro coloca frente a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, e o senador Flávio Bolsonaro, de centro-direita, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso e condenado a 27 anos por liderar uma tentativa de golpe de Estado após perder a eleição de 2022 para Lula, e hoje em regime de prisão domiciliar. Flávio Bolsonaro é aliado declarado de Trump.

“Nova tentativa”, e com histórico documentado

A leitura do governo brasileiro de que a missão americana seria uma “nova tentativa” de desestabilizar o processo eleitoral não é retórica diplomática: ela tem precedente factual.

Antes da eleição de 2022, o próprio Jair Bolsonaro convocou embaixadores estrangeiros para apresentar alegações sem provas sobre supostas vulnerabilidades nas urnas eletrônicas brasileiras, táticas idênticas às usadas por Trump nos Estados Unidos. O Tribunal Superior Eleitoral concluiu posteriormente que Bolsonaro abusou do poder e o tornou inelegível até 2030. Mesmo assim, os ataques ao sistema continuam, agora conduzidos pelo filho mais novo do ex-presidente. Na semana passada, em evento com dezenas de diplomatas, Flávio Bolsonaro afirmou que as urnas brasileiras teriam sido fabricadas pela empresa Smartmatic, a mesma que autoridades americanas associam a alegações de manipulação eleitoral na Venezuela. Tanto a Smartmatic quanto o TSE negaram, categoricamente, qualquer relação comercial.

Agora, o padrão se repete, com endosso explícito de Washington.

Uma escalada em três atos

A tentativa de enviar emissários para questionar as urnas brasileiras não acontece no vácuo. Ela é o terceiro movimento de uma pressão americana que começou com instrumentos jurídicos, avançou para o campo econômico e chegou agora ao núcleo duro do processo democrático.

Primeiro ato, A Lei Magnitsky contra o STF. Em 30 de julho de 2025, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou a aplicação das sanções da Lei Magnitsky Global contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, sob alegações de violações de direitos humanos, sanções que bloqueiam bens, contas bancárias e proíbem a entrada nos Estados Unidos. Semanas depois, a medida foi estendida à esposa do ministro, ao advogado-geral da União Jorge Messias e ao ministro do Superior Tribunal de Justiça Benedito Gonçalves, que havia sido relator das ações que tornaram Jair Bolsonaro inelegível. O próprio autor da lei original nos Estados Unidos, o congressista James McGovern, escreveu ao Tesouro e ao Departamento de Estado para alertar que o uso do instrumento nesse caso “viola a intenção e o propósito” da norma, criada para punir violadores de direitos humanos, não para protegê-los. Em dezembro de 2025, sob pressão diplomática, Trump retirou Moraes e sua família da lista. O Itamaraty declarou que o Brasil “não se curvaria” às sanções.

Segundo ato, O tarifaço. Enquanto a batalha jurídica se desdobrava, Washington foi apertando o torniquete econômico. Em julho de 2026, a combinação de duas rodadas de sobretaxas americanas, uma adicional de 25% e uma nova de 12,5%, criou uma alíquota acumulada de 37,5% sobre um conjunto de produtos brasileiros. Segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a medida atinge 16,5% das exportações brasileiras ao mercado norte-americano, o equivalente a US$ 6,6 bilhões em produtos que incluem máquinas e equipamentos, madeira, calçados, móveis e confecções. O comércio bilateral já vinha em queda: as exportações brasileiras aos EUA recuaram de um recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões em 2025, e continuaram em retração nos primeiros meses de 2026. A participação americana nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% entre os primeiros semestres de 2025 e 2026. No Palácio do Planalto, o tarifaço foi interpretado como um recado de que as negociações comerciais passavam pela situação jurídica de Jair Bolsonaro, uma leitura que a Casa Branca nunca desmentiu com clareza.

Terceiro ato, A eleição. A visita barrada pelo Itamaraty fecha o ciclo: depois de tentar constranger o Judiciário com sanções e o governo com tarifas, Washington aparentemente buscava agora atuar diretamente sobre a disputa eleitoral, enviando emissários de um bureau federal americano para discutir, em Brasília, a “integridade” de um sistema eleitoral que o próprio TSE, especialistas independentes e observadores internacionais reiteradamente validaram. A agenda prevista, reuniões com autoridades, líderes religiosos e sociedade civil, a menos de noventa dias do primeiro turno, dificilmente seria lida, neste contexto, como rotina diplomática.

O Brasil e a América Latina no tabuleiro de Trump

O caso não é isolado na estratégia de Washington para a região. O governo Trump tem atuado abertamente para moldar o campo político da América Latina, com endossos presidenciais ao presidente argentino Javier Milei, ao chileno José Antonio Kast e ao recém-eleito colombiano Abelardo De La Espriella. O padrão é consistente: apoio a líderes alinhados ideologicamente com Trump e pressão sobre governos de centro-esquerda ou esquerda que resistem a essa agenda.

No caso do Brasil, a variável adicional é o vínculo pessoal entre a família Trump e a família Bolsonaro, reforçado publicamente ao longo dos últimos anos. Flávio Bolsonaro não respondeu à Reuters quando consultado sobre a visita frustrada dos emissários americanos.

O governo brasileiro, por sua vez, optou por reagir com firmeza, mas sem ruptura. A negativa dos vistos é um sinal claro ao eleitorado doméstico e à comunidade internacional de que Brasília não admite interferência externa no seu calendário eleitoral, ao mesmo tempo em que não dá a Washington o pretexto para uma escalada diplomática mais severa.

Uma democracia que já resistiu

É difícil avaliar a tentativa americana de enviar emissários para questionar as urnas brasileiras sem lembrar o que aconteceu da última vez em que atores políticos, desta vez domésticos, com conexões com o mesmo campo ideológico, tentaram impedir o resultado de uma eleição no Brasil. Em 8 de janeiro de 2023, apoiadores de Bolsonaro invadiram e vandalizaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. O ex-presidente foi condenado a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe. A democracia brasileira resistiu, mas o custo foi alto, e as cicatrizes ainda estão abertas.

O que a série de episódios dos últimos doze meses revela é que a pressão não terminou com a derrota de 2022: ela apenas migrou de instrumento. Saiu das ruas e voltou pelo corredor diplomático, com sanções, tarifas e agora uma visita que o Brasil decidiu, simplesmente, não deixar acontecer.

Por Pedro Galhardo | Advogado internacional

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