# Reescrita Jornalística
Era como um dueto musical aquela caminhada apressada ao lado da avó, na área rural de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, para vender pano de prato na feira. Aos 10 anos, Ravi Shankar Domingues corria de um lado ao outro para conciliar as aulas na escola pública, o canto no coral da cidade e apresentações em uma banda de forró. Uma infância humilde, marcada pela perda precoce dos pais, o levou a morar com os avós – o avô pedreiro e a avó, sua companheira inseparável nas tarefas diárias.
A viravolta veio na adolescência, como um sopro irresistível de oboé. Um amigo da família, impressionado com a determinação do garoto pobre, levou-o à Escola de Música de Brasília, a maior unidade pública de ensino musical no Brasil, a mais de 40 quilômetros de casa. Lá, os sons penetrantes do instrumento de madeira o encantaram imediatamente. Apesar dos alertas de que o oboé era caro e oferecia poucas oportunidades no mercado, Ravi persistiu.
Saía de casa às 4h30 todos os dias, contando com ajuda de uma tia e cachês de apresentações locais para pagar o transporte. Às vezes, chegava em casa após as 23h, após um dia exaustivo que incluía o ensino médio e um sanduíche como única refeição. Ingressou na escola por sorteio e descobriu ali não só o instrumento, mas uma acolhida transformadora com aulas de prática de orquestra e lições de vida. Um momento marcante foi ouvir as Bachianas Brasileiras nº 5, de Heitor Villa-Lobos, que o emocionou profundamente.
Aprovado no curso de licenciatura em música da Universidade de Brasília, formou-se e seguiu para São Paulo, onde tocava em três orquestras simultaneamente para pagar as contas. Pai aos 16 anos, corria entre ensaios e responsabilidades familiares. Indicado por um professor, foi para Rostock, na Alemanha, e depois integrou a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais por seis anos.
Atualmente, aos 42 anos, é professor na Universidade Federal da Paraíba, onde criou a Associação Brasileira de Oboé e Fagote e a Rede Brasileira de Saúde do Artista, promovendo mais de 90 ações de extensão para discutir condições de trabalho e saúde de instrumentistas.
Na Escola de Música de Brasília, Ravi retorna como ídolo. Na semana passada, durante o curso internacional de verão, alunos de oboé tiveram aulas com ele no mesmo corredor onde tudo começou. “Eu passo por aqui e está tudo vivo na minha cabeça. Vejo nos atuais alunos histórias como a minha”, disse o músico, que comprou seu primeiro oboé com 500 reais ganhos em um bloco de carnaval.
O diretor da escola, Davson de Souza, destacou a importância de trazer “pratas da casa” como Ravi: “A função principal do curso é formativa. Ex-alunos internacionalmente reconhecidos mostram o valor do conhecimento”.
Reprovado na sexta série, Ravi organizou sua própria banda de pop rock, a Zero Meia Um, e tocou profissionalmente cedo em Brasília. “A escola ensinou mais do que o instrumento. Me deu acolhida total”, resumiu. De origens humildes a palcos globais, sua jornada mostra como o oboé, outrora visto como obstáculo, abriu portas para uma carreira que une Brasil e mundo.
