Cacique Raoni critica exploração de petróleo na Amazônia durante COP30

# Cacique Raoni desafia planos de petróleo da Petrobras na COP30

Durante a barqueata que marca o início da Cúpula dos Povos, evento paralelo à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), o cacique Raoni Metuktire voltou a defender com vigor a preservação da Amazônia e criticou projetos de exploração de petróleo e mineração em terras indígenas. Aos 93 anos, com a voz ainda energética, o líder do povo Kayapó ocupou a tribuna do Ministério Público Federal na zona verde da conferência para fazer um apelo direto aos presentes sobre a necessidade de união contra a perfuração de poços na região.

“Eu quero falar mais uma vez! Me escutem com atenção: vamos nos unir! Vamos ter força. Nós não podemos permitir que essa perfuração aconteça. Nós temos que ser fortes e continuar lutando para que não seja feita essa perfuração”, declarou Raoni, dirigindo-se a uma plateia que lotou cada espaço disponível do auditório para ouvi-lo.

O cacique se refere especificamente à exploração de petróleo da Petrobras no bloco 59, localizado a 175 quilômetros da costa do Amapá, em área ecologicamente sensível que abriga o maior corredor de manguezais do mundo, recifes de corais pouco conhecidos e dezenas de povos tradicionais, entre eles indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e ribeirinhos. A Petrobras obteve a licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para iniciar operações de pesquisa exploratória na Margem Equatorial poucos dias antes do início da COP30, região apontada como novo pré-sal devido a seu potencial petrolífero.

A contradição entre os discursos não passou despercebida. Em seu discurso de abertura da COP30, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a falar da necessidade de um “mapa do caminho para que a humanidade, de forma justa e planejada, supere a dependência dos combustíveis fósseis”, mensagem que ele já havia defendido durante a Cúpula do Clima com líderes de mais de 50 países, realizada logo antes da conferência. Para Raoni e os povos indígenas presentes, essa contradição é inaceitável.

O líder indígena afirmou ter tratado do tema recentemente com o presidente Lula e com o francês Emmanuel Macron, pedindo que ambos “não autorizem perfurações na floresta”. “Eu falei com o presidente Lula para ele não procurar petróleo aqui. Vou continuar cobrando. Penso em marcar um novo encontro com ele para falar sobre isso. Temos que ser respeitados”, afirmou Raoni. Em tom mais provocador, o cacique complementou: “Vou falar com o presidente Lula. Se precisar puxar a orelha do presidente para ele me ouvir, farei isso. Ele tem que nos respeitar”.

Raoni não está sozinho nessa luta. Chegou a Belém como parte da “Caravana da Resposta”, que percorreu mais de três mil quilômetros desde o Mato Grosso até a capital paraense, reunindo lideranças como a ativista Alessandra Korap Munduruku e uma delegação do povo Kayapó com mais de 20 pessoas. A caravana veio demonstrar apoio aos “parentes” do município de Oiapoque, comunidade já impactada pelas ações da Petrobras.

Os representantes dos povos do Oiapoque são enfáticos ao afirmar que não precisam do petróleo e questionam os discursos que justificam a exploração com argumentos de garantia de soberania nacional e geração de riqueza. Eles recordam que a produção de petróleo em outros lugares não trouxe “desenvolvimento” para as populações locais, apenas consequências ambientais devastadoras. “Ninguém aqui está sendo contra o progresso. Nós queremos ser respeitados e ouvidos”, reafirma a demanda das lideranças indígenas durante os eventos da Cúpula dos Povos.

Raoni é um símbolo vivo da resistência indígena, com uma trajetória que se estende por décadas. Originário da etnia Caiapó do Mato Grosso, é reconhecido mundialmente por sua luta pela preservação da Amazônia e pelos direitos dos povos indígenas. No fim da década de 1980, participou ativamente da Constituinte brasileira e realizou diversas viagens internacionais em defesa dos povos indígenas, incluindo uma turnê memorável com o cantor britânico Sting que passou por 17 países. Em 2023, subiu a rampa do Palácio do Planalto de braços dados ao presidente Lula no dia de sua posse, símbolo da esperança que deposita nas promessas de seu governo.

Mas a esperança vem acompanhada de exigências claras. Em seus pronunciamentos, Raoni articula uma visão que conecta a proteção territorial indígena à responsabilidade global do Brasil diante da crise climática. “Quando encontro autoridades lá fora do país, nenhuma me oferece dinheiro em troca de madeiras no meu território, nenhum me oferece dinheiro em troca de minérios no meu território. Mas eu os cobro diretamente. Ninguém deve comprar nossas terras ou nossas madeiras. Preciso falar para que nosso território seja preservado e respeitado para a gente viver bem nas nossas terras”, afirmou com firmeza.

Para Raoni, a Amazônia é essencial não apenas para os povos que nela habitam, mas para o mundo inteiro. “Precisamos cuidar do planeta. Se continuar o desmatamento, nossos filhos e netos vão ter problemas sérios. O nosso território garante a respiração do mundo inteiro”, alertou. Ele também critica a expansão da soja, que segundo sua avaliação tem “aumentado o desmatamento” na Amazônia, e protesta contra outras obras promovidas pelo governo federal, como a Ferrogrão e a construção de uma hidrovia no Rio Tapajós, projetos que visam facilitar o escoamento da produção agrícola.

Raoni também ressalta a importância da participação das mulheres indígenas nas mobilizações e o papel das novas gerações na defesa do território. “Elas estão tendo opinião, estão com vontade de participar. Eu apoio e gosto das mulheres que estão junto com a gente nessas mobilizações”, destacou o líder, reconhecendo a força coletiva que impulsiona a resistência indígena.

A demanda central que ecoou na Cúpula dos Povos é clara: ser ouvido e respeitado em todos os processos de empreendimentos que impactam os territórios indígenas. As lideranças também questionam o significado de uma “COP da implementação”, como vem sendo defendido pela presidência da conferência, ressaltando que acordos feitos no papel frequentemente não são cumpridos. Para os povos da floresta, a COP30 é tanto uma oportunidade para fazer suas vozes ecoarem globalmente quanto um momento de pressão sobre seus próprios governantes para que transformem discursos em ações concretas de proteção ambiental e respeito aos direitos indígenas.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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