Donald Trump não está apenas endurecendo a política migratória dos Estados Unidos; ele está transformando o aparato federal de segurança em instrumento político de confronto interno. A escalada de violência envolvendo a ICE e a Patrulha de Fronteira em territórios governados por democratas, como Minneapolis, não é um desvio isolado, mas parte de um método: produzir caos, criminalizar a reação popular e, a partir daí, justificar poderes de exceção em nome da “lei e da ordem”. A morte de Alex Jeffrey Pretti, enfermeiro de UTI, cidadão norte‑americano, é mais um capítulo dessa lógica – e um alerta direto para o Brasil, onde a extrema direita segue numericamente dominante no Congresso e observa atentamente esse roteiro.

A execução de Alex Jeffrey Pretti demonstra o desvio de função da máquina federal de imigração. Ontem, 24 de janeiro, agentes da Patrulha de Fronteira, atuando sob o guarda‑chuva da ICE, o abordaram no sul de Minneapolis durante uma operação. Testemunhos e vídeos mostram Pretti sendo atingido por spray de pimenta, derrubado e imobilizado por cerca de seis agentes antes de ser baleado repetidas vezes. Imagens divulgadas pela imprensa indicam que um dos agentes teria retirado uma arma de sua posse antes dos disparos, enquanto o enfermeiro segurava um celular, não um revólver.
Nada disso se parece nem de longe com “controle migratório”. Trata‑se de uma ação de guerra interna, cujo alvo foi um cidadão norte‑americano, branco, enfermeiro de hospital de veteranos, dono de arma legalizada e sem antecedentes relevantes, descrito por colegas e pacientes como alguém profundamente compassivo. O recado é claro: se até esse perfil pode ser abatido friamente em operação do ICE, ninguém está imune ao braço armado do Estado federal quando ele é mobilizado para impor medo e disciplinar territórios considerados hostis ao governo.
O passo seguinte foi tão grave quanto sua morte a sangue frio: agentes federais estão impedindo neste momento que investigadores estaduais de Minnesota, munidos de mandado judicial, acessassem a cena do crime. O governo federal já se apressou em justificar e defender os agentes federais, acusando a vítima de ser um terrorista interno e o prefeito de estimular uma insurreição. Ou seja, o governo federal, que deveria cooperar com autoridades locais para esclarecer o ocorrido, opta por bloquear a investigação estadual e prejulgar um episódio que deveria passar pelo devido processo de investigação e apuração rigorosos, já que os vídeos amplamente divulgados, em vários ângulos, e relatos de testemunhas, tornam muito difícil dizer que não foi uma execução a sangue frio. Pretti já estava desarmado quanto os tiros contra sua pessoa foram disparados.
O governador Tim Walz classificou como “absurda” a versão oficial do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) sobre o episódio.
Lembremos que a morte de Pretti é o terceiro caso de grave violência provocado por agentes federais de imigração em apenas 17 dias na cidade. Não é coincidência; é intenção de provocar o caos.
Em 7 de janeiro de 2026, Renée Nicole Good (ou Renee Macklin Good), 37 anos, cidadã norte-americana e mãe de três filhos, foi baleada e morta por um agente da ICE chamado Jonathan Ross enquanto dirigia seu SUV em uma rua nevada no sul de Minneapolis, gerando intensos protestos.
Em 14 de janeiro de 2026, Julio Cesar Sosa-Celis, um cidadão venezuelano, foi baleado e ferido por um agente do ICE, após supostamente resistir à prisão e começar a agredir violentamente os agentes, segundo autoridades federais. O Departamento de Segurança Interna informou que outros dois venezuelanos também foram detidos após atacarem um agente com uma pá e um cabo de vassoura enquanto ele tentava prender Sosa-Celis.
Então Minnesota já fervia em protestos intensos antes da morte de Alex Pretti. Milhares de manifestantes tomaram as ruas em 23 de janeiro de 2026, sob temperaturas abaixo de zero, promovendo o “Ice Out of Minnesota: Dia da Verdade e Liberdade” – um blecaute econômico com lemas como “sem trabalho, sem escola, sem compras”, ” ICE fora de Minnesota”. Lideranças comunitárias, clérigos e sindicatos fecharam negócios e paralisaram a rotina nas Twin Cities contra a “Operation Metro Surge”, operação de repressão atualmente em andamento, com mais de 3000 agentes federais do ICE dispachados.

Donald Trump não pode se reeleger, mas pode comprometer o futuro da democracia americana
Donald Trump, barrado pela 22ª Emenda da Constituição americana para concorrer a um terceiro mandato, está construindo, em tempo real, um arsenal de caos social e instrumentos legais que poderiam justificar a suspensão ou manipulação das eleições de meio de mandato de 2026 – ou mesmo das presidenciais em 2028. Esse padrão remete diretamente as teorias de Steve Bannon, seu ex-estrategista-chefe: a estratégia de “flood the zone with shit” (inundar a zona com merda, em tradução literal), sobrecarregar a mídia, opositores e instituições com um fluxo constante de ações radicais, escândalos e narrativas, diluindo a resistência e normalizando o caos.
O objetivo de Trump com este roteiro é claro: inflamar tensões através de forte violência federal como as mortes em Minneapolis, criar pânico nacional – a ponto de reacender grupos armados como os Panteras Negras modernos, que voltam às ruas em autodefesa contra a repressão (qual a outra alternativa?) –, e invocar poderes de exceção para “salvar a nação”. Isso não é ficção conspiratória; é um roteiro que está sendo testado neste momento e abertamente discutido por aliados.

Dessa forma, as mortes de Renée Good e Alex Pretti e os tiros em Julio Sosa-Celis em Minneapolis – três episódios violentos (sendo dois deles fatais) em 17 dias – não devem ser entendidos como acidentes isolados, pois estão sendo usados deliberamente para criar uma narrativa de “guerra civil”, de caos social. O enredo é que o país está sob ataque de terríveis imigrantes sul-americanos e outras etinias, que são caçados e reprimidos violentamente por homens mascarados a serviço do governo federal. Com tanta violência, mortes e protestos são inevitáveis. Ótimo, protestos agora serão tratados como insurreição civil, e medidas drásticas precisam ser adotadas. Trump já flerta publicamente com a ideia de cancelar eleições de meio de mandato (midterms) de 2026 sob o argumento de que “não deveríamos nem ter eleições” em meio a tanto “caos”, mas, espere um pouco, quem está criando o caos?
As armas legais para um autogolpe eleitoral nos EUA
Sem poder suspender eleições por decreto presidencial (as eleições são obrigatórias por lei federal), Trump tem um kit de instrumentos “legais” para interferir, deslegitimar ou paralisar o processo que, com certeza, já estão sendo discutidos. Qualquer um dos instrumentos abaixo, se usados nesse contexto e com os objetivos aqui discutidos, são assustadores pois se prezam a intimidar ou perseguir eleitores, criando uma narrativa que gere desconfiança o sufiente para o eleitor democrata ficar longe das urnas. Vejamos.
O Insurrection Act de 1807 permitiria ao presidente chamar o Exército, Marinha ou fuzileiros para “suprimir rebeliões” sem aval do Congresso ou governadores. Imagine tropas federais em locais de votação de estados azuis sob pretexto de “proteger urnas de insurretos”. Qual o benefício? Suprimir eleitores democratas, criar e amplificar relatos de “irregularidades nas urnas” e pavimentar contestações de resultados – tudo enquanto Trump posa como salvador da democracia.
O National Emergencies Act de 1976 desbloqueia poderes amplos: reprogramar fundos, suspender regras, mobilizar o Departamento de Segurança Interna para “eleições seguras”. Aliados já propõem declarar emergência por “ameaça terrorista” ou “invasão migratória”, federalizando padrões de voto (adeus, mail-in ballots, ou votação postal) e ignorando estados. Ganho: reduz participação opositora, favorece a base rural e suburbana republicana, e adia seções “perigosas” em cidades como Minneapolis.
Não para por aí: a federalização da Guarda Nacional (via Title 10 USC) transfere tropas estaduais para controle pelo Pentágono, permitindo “segurança eleitoral” seletiva. Trump poderia alegar “distúrbios” para cercar centros de votação democratas, intimidando enquanto “audita” zonas pró-GOP. O Stafford Act, para desastres civis, completa o pacote: fecha seções sob “ameaça iminente”, realocando votos para áreas seguras.
Além das emergências declaradas, Trump já emite ordens executivas – ou decretos, como preferir – que cortam verbas para estados que aceitam votos postais após o dia da eleição, além de acelerar purgas em listas de eleitores pelo Departamento de Justiça (DOJ), tudo sob o pretexto de garantir “integridade eleitoral”.
O gerrymandering agressivo (ou manipulação das fronteiras de distritos eleitorais), a recusa de aliados no Congresso em certificar resultados ruins além das narrativas que já estão sendo criadas de eleições “roubadas” completam esse arsenal. Ele não vai e não pode cancelar as eleições com “canetada”, ele prete nde sufocar o processo eleitoral com as armas legais permitidas pela própria Constituição.
A vitória republicana nas midterms agora 2026 evitam impeachment ou perda do controle do Congresso; em 2028, um sucessor como JD Vance ou Ron DeSantis assume o poder com o trumpismo já blindado legal e institucionalmente.
O risco da importação do método para o Brasil
Aqui, o 8 de janeiro de 2023 foi o ensaio malsucedido: bolsonaristas invadiram instituições para criar caos e clamar por “intervenção constitucional”. Trump pretende atualizar o manual criando base sólidas para insurreição, usando o ICE por um lado para manter Estados de maioria democrata sob intensa pressão, a ponto de explodir a qualquer momento enquanto prepara ferramentas “legais” como o Insurrection Act – que lembram muito nossos próprios dispositivos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), para suforcar os movimentos e prejudicar votações em locais chave de maioria democrata, interferindo diretamente no pleito.
No Brasil, com a extrema-direita ainda detentora de força numérica expressiva no Congresso Nacional – especialmente na Câmara dos Deputados –, o risco de importar essa versão refinada do autogolpe trumpista é real, especialmente se Trump obtiver êxito nos EUA, validando o modelo. Imagine o seguinte cenário: violência seletiva e descentralizada, orquestrada por forças federais de segurança (como PF ou PRF ampliadas), concentrada em capitais e cidades do Nordeste que deram margens esmagadoras de vitória ao presidente Lula em 2022. Esses territórios, vistos como “bolsões vermelhos” pela direita radical, poderiam ser alvos de operações agressivas sob pretextos como “combate ao crime organizado”, “fraude em benefícios sociais”, etc, replicando as táticas da ICE em Minneapolis: mortes provocadas, protestos reprimidos, bloqueio de investigações locais e narrativa de “caos incontrolável” para deslegitimar prefeitos e governadores progressistas.
A partir daí, o roteiro bannonista se desenrolaria: decretação de intervenção federal via Garantia da Lei e da Ordem (GLO) ou estado de defesa (artigo 136 da Constituição), invocando “insurreição interna” ou “ameaça à ordem pública”, com tropas federais ocupando ruas, escolas e comércios nessas regiões. Isso não seria ruptura aberta, mas erosão “legalista”: o Executivo central se apresentaria como salvador contra “governos locais cúmplices do banditismo”, testando limites institucionais enquanto a base extremista aplaude. O risco se agrava com a possibilidade concreta de a extrema-direita conquistar maioria absoluta no Senado nas eleições de 2026, fortalecida por um eventual “sucesso” de Trump. Com controle bicameral já em 2026 eles poderiam:
- Pressionar e chantagear o STF: usar CPIs, vetos orçamentários e impeachment para pressionar ministros, exigindo solturas seletivas ou blindagem de investigações;
- Pautar anistia irrestrita: aprovar lei ampla perdoando todos os condenados por atos golpistas (de invasores a financiadores), sob o manto de “pacificação nacional”, pavimentando o retorno de lideranças condenadas como Jair Bolsonaro, anulando precedentes judiciais contra rupturas;
- Reformar regras eleitorais: acelerar PECs para auditorias compulsórias, fim do voto eletrônico sob pretexto de “integridade”, enquanto forças armadas são “convidadas” a fiscalizar urnas, podendo gerar recontagem de votos, e anulação do pleito: caos.
- Com maioria no Congresso, a extrema-direita poderia ampliar ainda mais as emendas parlamentares, que já somam impressionantes R$ 61 bilhões no Orçamento de 2026 (R$ 49,9 bilhões em individuais/coletivas + R$ 11,1 bilhões gerenciadas pelo Executivo), usurpando a competência exclusiva do Executivo de gerir o orçamento público e transformando parlamentares em “senhores feudais” regionais. Esse montante recorde – que cresceu de R$ 9 bilhões em 2016 para R$ 48,5 bilhões em 2025, com empenhos de R$ 127 bilhões só nos três primeiros anos de Lula – inclui emendas impositivas (R$ 37,8 bilhões, obrigatórias) e de comissão (R$ 12,1 bilhões), frequentemente alocadas sem critérios transparentes, priorizando bases eleitorais e aliados em detrimento de políticas nacionais.
Com o STF de joelhos, golpista soltos, voto impresso e orçamento ilimitado, o caminho para o golpe estaria pavimentado: agora é só recusar o resultado das urnas através da alegação de fraude massiva nos estados nordestinos “ocupados”, e invocar a GLO para “restaurar ordem”.
Enquanto Trump testa Minneapolis como laboratório de ruptura democrática, o Brasil não pode fingir que isso é “problema dos gringos”. Por isso nosso voto nunca foi tão importante como nessas eleições. O eleitor precisa renovar o Congresso Nacional e alinhar seu voto para formar maioria democrática no Congresso, tanto na Câmara como no Senado, que este ano renova 2/3 das vagas, ou seja, serão dois votos para senador.
Se nós brasileiros ignorarmos o está acontecendo nos Estados Unidos e entregarmos o Congresso de bandeja para golpistas travestidos de “Deus, pátria e família”, a democracia não vai cair de uma vez, como alertam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em “Como as democracias morrem”: ela será erodida, gradual e sutilmente, por estes mesmo políticos eleitos democraticamente por nós, que usam as próprias instituições e uma construção fria e calculada do caos, para matá-la.
Ao fim e ao cabo, é isso que acontece quando um líder que tenta dar um golpe de Estado não é responsabilizado com todo rigor da lei: ele entende o fracasso apenas como um ensaio geral e se reorganiza para tentar de novo, com mais método, mais crueldade e mais precisão estratégica. Ao contrário dos Estados Unidos, onde a justiça permitiu que Trump continuasse atuando politicamente e radicalizando sua base mesmo após ter testado abertamente os limites da ordem constitucional no primeiro mandato, o Brasil, ao contrário, viu suas instituições funcionarem: o ex-presidente Jair Bolsonaro foi processado, julgado e condenado pelo STF a 27 anos de prisão por sua participação na tentativa de ruptura democrática, e atualmente cumpre pena no presídio federal conhecido como “Papudinha”.
Essa resposta firme não é vingança; é um recado civilizatório de que a democracia não é um jogo sem consequências – quem tenta destruí-la precisa saber, de antemão, que o preço será alto, ou tanto pior.
Por Pedro Galhardo, advogado internacionalista