Empresariado brasileiro comemora avanço no acordo com União Europeia

A aprovação do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia foi recebida com entusiasmo por entidades empresariais brasileiras, que veem na decisão europeia a abertura de um novo ciclo de integração econômica, investimentos e competitividade para o país. Após mais de 25 anos de negociações, o aval dado por uma maioria qualificada de países da União Europeia removeu o principal obstáculo político à assinatura do tratado, projetado para criar a maior área de livre comércio do mundo, integrando dois dos maiores blocos econômicos globais e um mercado de centenas de milhões de consumidores.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou o acordo como um passo decisivo na inserção internacional do Brasil e no fortalecimento da indústria nacional. A entidade destaca que, em 2024, a União Europeia absorveu 14,3% das exportações brasileiras e que, a cada R$ 1 bilhão exportado para o bloco europeu, foram gerados 21,8 mil empregos, com movimentação de R$ 441,7 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção. Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, a aprovação cria as condições políticas necessárias para avançar rapidamente rumo à assinatura e à transformação desse avanço institucional em oportunidades concretas de comércio, investimentos e ganho de competitividade. A confederação também enxerga uma chance de ampliar de forma consistente as relações comerciais e produtivas com países do Leste Europeu, como República Tcheca, Polônia e Romênia, em setores como indústria, tecnologia e consumo interno, hoje ainda marcados por fluxos modestos de comércio com o Brasil.

Entre os setores industriais, a indústria química está entre as mais otimistas. A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) considera o tratado um marco estratégico, sobretudo por ampliar o acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo, estimular novos investimentos e fortalecer a inovação em bases sustentáveis alinhadas a princípios ambientais, sociais e de governança. O presidente-executivo da entidade, André Passos Cordeiro, avalia que o acordo oferece uma oportunidade concreta de reposicionar a química brasileira em cadeias globais de maior valor agregado. Segundo ele, o novo ambiente regulatório e tarifário tende a ser mais previsível e moderno para investimentos, especialmente em áreas como bioeconomia, química de base renovável e energia limpa, segmentos em que o país busca se afirmar como fornecedor relevante.

No setor eletroeletrônico, o tom também é de celebração. Para a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), a assinatura representa um marco essencial para o comércio internacional em um cenário de turbulência geopolítica e sucessivas crises, ao criar a maior zona de livre comércio do mundo. Com base em projeções da entidade, o tratado pode elevar as exportações brasileiras de bens eletroeletrônicos para a União Europeia em algo entre 25% e 30% no médio prazo. Além de potencializar as vendas externas, a Abinee argumenta que a integração com o mercado europeu permitirá diversificar fornecedores de insumos e componentes para a produção industrial, reduzindo riscos associados à concentração de cadeias de suprimentos em poucas regiões do planeta.

O comércio e os serviços também apostam em um efeito multiplicador. A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) projeta que o acordo abrirá diversas janelas de oportunidade para a economia dos países do Mercosul. O presidente da entidade, Alfredo Cotait Neto, avalia que o entendimento configura uma combinação em que todos os países ganham e se fortalecem para competir em um ambiente global cada vez mais disputado. Ele aponta a decisão como vitória da diplomacia e do setor produtivo e prevê uma nova rodada de investimentos europeus em Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, com impacto positivo para toda a América do Sul. Embora veja o momento como histórico, Cotait ressalta que a fase de implementação exigirá intenso diálogo entre os países para que os benefícios alcancem de fato a sociedade.

Entre as federações industriais estaduais, o acordo também é visto como um divisor de águas, ainda que acompanhado de alertas. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) demonstrou entusiasmo, mesmo considerando que o texto não é perfeito. A entidade avalia que essa foi a fórmula possível para conciliar interesses de 31 países em um cenário de transformação do comércio internacional e lembra que participou ativamente das negociações ao longo das últimas décadas, defendendo um acordo que gerasse valor real tanto para a população quanto para a indústria brasileira. Na visão da Fiesp, o tratado é abrangente e tende a mudar substancialmente a forma como empresas do Mercosul e da União Europeia fazem negócios, importam, exportam e investem. O presidente da federação, Paulo Skaf, afirma que o verdadeiro trabalho começa agora, com a necessidade de elevar produtividade, inovar e buscar excelência dentro das fábricas para competir com os europeus em condições de igualdade. Ele ressalta ainda a importância de garantir isonomia competitiva, de modo a permitir que o empreendedor brasileiro possa prosperar e extrair o máximo das novas oportunidades.

No Rio de Janeiro, a Federação das Indústrias do Estado (Firjan) também celebrou a decisão, avaliando que a aproximação entre Mercosul e União Europeia deverá promover aumento significativo da corrente de comércio, atração de novos investimentos e expansão do PIB industrial brasileiro. A entidade enfatiza que o tratado favorece a diversificação e a ampliação de parcerias em um ambiente internacional marcado por tensões geopolíticas e revisões de cadeias de fornecimento, o que pode colocar empresas brasileiras em um patamar mais estratégico nas redes globais de produção.

Em Minas Gerais, o tom é mais cauteloso, embora favorável. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) considera o acordo positivo, mas defende uma análise cuidadosa de seus impactos específicos sobre a indústria. O estado mantém uma relação comercial sólida e superavitária com a União Europeia, com exportações da ordem de US$ 31 bilhões e importações de US$ 13,38 bilhões entre 2021 e 2025, resultando em um saldo de US$ 17,62 bilhões. Para a federação, o tratado tende a beneficiar sobretudo setores como café, mineração, siderurgia, celulose e cadeias industriais integradas, em especial a automotiva e de autopeças. Ao mesmo tempo, a entidade chama atenção para a necessidade de monitorar a implementação das novas regras, com foco em segmentos mais sensíveis à concorrência externa e em atividades sujeitas a exigências sanitárias e regulatórias específicas, que podem funcionar como barreiras não tarifárias se não houver adequada adaptação.

No setor agropecuário, a avaliação também combina celebração e alerta. O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles, considera a aprovação um avanço importante após mais de duas décadas de discussões e ajustes, em um momento em que o aumento de tarifas imposto pelos Estados Unidos sobre determinados produtos reforça a necessidade de acordos bilaterais que garantam maior capilaridade ao comércio exterior brasileiro. Ele pondera, porém, que salvaguardas impostas por países europeus, como Itália e França, para proteger suas cadeias produtivas, não são equivocadas, e defende que o governo brasileiro adote postura semelhante de proteção estratégica aos produtores nacionais. Meirelles cita, como exemplo, a situação do leite em pó, afirmando que o setor denuncia há mais de um ano a importação desenfreada do produto, com impacto sobre a cadeia do leite, sem resposta efetiva do governo. Na visão do dirigente, é fundamental que o poder público atue como parceiro do setor produtivo justamente no momento em que o país se abre a uma concorrência mais intensa em um mercado de padrões sanitários e ambientais rigorosos.

O consenso entre as diferentes entidades é que o acordo Mercosul–União Europeia representa, ao mesmo tempo, uma vitrine e um teste para a economia brasileira. Ao integrar o país a uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, o tratado promete ampliar mercados, atrair investimentos e incentivar a modernização industrial, mas também impõe às empresas e ao governo o desafio de elevar produtividade, ajustar marcos regulatórios, garantir condições de competição equilibrada e responder às preocupações de setores mais expostos à concorrência internacional. Entre o entusiasmo com as novas oportunidades e a cautela diante dos riscos, o setor produtivo brasileiro se prepara para uma etapa decisiva de adaptação e disputa por espaço no mercado europeu.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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