Erveiras se atualizam para atender a novas tradições de religiões afro

No coração do Mercadão de Madureira, um dos maiores centros comerciais populares da Zona Norte do Rio de Janeiro, a barraca de ervas de Elisabete Monteiro, conhecida como Bete, ferve de atividade. O celular não para de tocar com pedidos urgentes, e ela atende uma cliente que acaba de sair e esqueceu uma folha de bananeira. “Quer que eu leve para o Uber lá na porta do mercado, mas eu não posso, estou com muito movimento. Vou levar para minha casa, e ela vai buscar lá de noite”, explica Bete, equilibrando vendas presenciais e remotas.

O item esquecido tem destino certo: uma celebração naquela mesma noite em um terreiro de religião afro-brasileira. Nessas tradições, as folhas carregam o axé, a força vital que une o mundo espiritual ao real. Cada espécie tem seu propósito específico, usada em rituais, oferendas e banhos de descarrego ou prosperidade, especialmente no fim de ano, quando a busca por energias renovadas explode.

Bete é herdeira de uma linhagem dedicada a esse ofício. Sua mãe, Dona Rosa, a erveira mais antiga do Mercadão, chegou do Portugal há 50 anos e transformou a produção familiar de verduras e hortaliças. Aprendeu com pais e mães de santo a plantar e colher as ervas certas, reorientando tudo para suprir as demandas das religiões de matriz africana. Hoje, a família mantém três hortas em Irajá, perto do mercado, abastecendo feiras livres e bancas por toda a cidade.

A variedade atende a múltiplas vertentes. “Iniciamos com umbanda e candomblé jeje, depois passamos a atender candomblé Ketu e Angola, e hoje temos o Ifá, que vende bem”, conta Luiza de Fátima Monteiro, outra filha de Rosa, católica convicta que comanda uma barraca paralela da família. Luiza destaca como o negócio evoluiu, incorporando plantas raras e folhas frescas colhidas no dia, essenciais para banhos energéticos e espirituais.

O Mercadão de Madureira, inaugurado em 1959 pelo presidente Juscelino Kubitschek, é mais que um polo de comércio popular: é um preservador de tradições afro-brasileiras, apelidado de “shopping da macumba”. Com mais de 580 lojas em 16 galerias, atrai 80 mil pessoas por dia, misturando classes sociais em um espaço de diversidade cultural. Ali, das velas ao fumo, das folhas às favinhas, tudo se encontra para rituais que vão do cristão ao pagão, reforçando laços entre o sagrado e o cotidiano carioca.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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