Especialistas criticam retórica de governadores sobre combate ao crime

Governadores de sete estados brasileiros, liderados por Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro, anunciaram a criação do “Consórcio da Paz”, uma iniciativa voltada para a integração das forças de segurança estadual com o objetivo de combater o crime organizado no país. A reunião que oficializou o consórcio ocorreu em 30 de outubro de 2025 e contou com a participação de representantes de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal, além do próprio Rio de Janeiro. O projeto visa a cooperação conjunta, incluindo o compartilhamento de informações de inteligência e apoio financeiro, buscando a ampliação da eficácia das ações contra as organizações criminosas que atuam em diferentes estados do Brasil.

Contudo, o “Consórcio da Paz” tem sido alvo de críticas severas por especialistas em segurança pública, sociologia e ciência política que contestam tanto o nome quanto a abordagem proposta. O sociólogo Ignacio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), classifica o nome escolhido como inadequado e irônico, afirmando que deveria ser chamado de “Consórcio da Morte” devido à alta letalidade das ações promovidas pelo conjunto dos governos envolvidos, especialmente após a operação policial no Rio de Janeiro que deixou 121 mortos. Para Cano, a iniciativa reforça o uso de uma retórica que mascara uma política de segurança baseada na letalidade policial e não na promoção da paz social.

Outra crítica importante refere-se ao uso do termo “narcoterrorismo” pelos governadores para descrever facções criminosas. Especialistas, como a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz, da Universidade Federal Fluminense (UFF), consideram que a adoção desse conceito é um artifício retórico que dificulta o trabalho efetivo da polícia, além de esconder falhas, incompetências e oportunismos políticos. Cano complementa que o conceito de terrorismo exige motivações políticas, enquanto as facções brasileiras estão concentradas na busca de lucro financeiro e são classificadas como organizações criminosas, e não terroristas.

Especialistas apontam ainda que as operações policiais que geram elevado número de mortos, como as realizadas recentemente nos complexos do Alemão e da Penha, não têm apresentado soluções estruturais para o controle do crime organizado. Segundo Ignacio Cano, a única medida eficaz a curto prazo seria uma ocupação estatal contínua e ativa dessas áreas para impedir sua dominação por grupos armados, estratégia historicamente tentada pelos programas de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). A médio e longo prazos, entretanto, o desafio reside em criar condições para que moradores possam denunciar crimes e abusos sem medo de represálias, o que exige reconstruir a confiança entre população e autoridades.

A criação do “Consórcio da Paz” representa, portanto, uma tentativa política de uniformizar ações e discursos entre estados aliados, mas enfrenta resistência acadêmica e técnica por sua retórica que oculta a complexidade do problema, promove uma política de segurança marcada pela violência e não contempla mudanças estruturais profundas necessárias para a redução sustentável da criminalidade no Brasil.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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