O número de pessoas em situação de rua no Brasil segue em alta acelerada, alcançando 365.822 registros no final de 2025, segundo levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais. Esse total representa um crescimento contínuo desde 2022, após uma queda temporária durante a pandemia de covid-19, quando o índice despencou de 194.824 para 158.191 entre 2020 e 2021.
Os dados, extraídos do Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico), que monitora beneficiários de políticas como o Bolsa Família, revelam que a Região Sudeste concentra a maior parte dessa população, com 222.311 pessoas, ou 61% do total nacional. O Nordeste vem em segundo lugar, com 54.801 indivíduos nessa condição. São Paulo lidera isoladamente entre os estados, abrigando 150.958 pessoas em situação de rua, seguido por Rio de Janeiro (33.656) e Minas Gerais (33.139). Em contraste, o Amapá registra o menor número absoluto, com apenas 292 casos.
Pesquisadores do observatório apontam quatro fatores principais para o aumento: o aprimoramento do CadÚnico como ferramenta de registro e acesso a políticas sociais; a falta de iniciativas estruturantes em áreas como moradia, trabalho e educação; a piora das condições de vida pós-pandemia; e eventos climáticos extremos aliados a migrações forçadas na América Latina. Em dezembro de 2024, o número era de 327.925, e projeções indicam que a tendência persiste, com mais de 335 mil pessoas já registradas em março de 2025.
Robson César Correia de Mendonça, do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, atribui o fenômeno a uma combinação de fome persistente, custos elevados com aluguel, remédios e alimentação básica, além do avanço tecnológico que exclui trabalhadores sem qualificação. “Mesmo com a redução da insegurança alimentar grave, ainda existe muita fome no Brasil. Pessoas priorizam aluguel ou remédios e passam sem comer”, relata ele, que enfrenta dificuldades para custear tratamentos caros, como máscaras de R$ 6 mil e remédios de R$ 700 a R$ 800. Para Mendonça, a solução exige capacitação profissional, combate ao preconceito e políticas de moradia e emprego. “É preciso ver essas pessoas como cidadãos desempregados, não como seres de outro planeta. O governo deve sensibilizar empresários para oferecer vagas, sem criar guetos”, defende, criticando a falta de seriedade e dignidade na abordagem oficial.
Em resposta, a Secretaria de Desenvolvimento Social de São Paulo destaca ações integradas com municípios, com repasses de R$ 633 milhões às prefeituras desde o início da gestão, dos quais R$ 145,6 milhões destinados exclusivamente à população de rua. A pasta ampliou serviços como 24 novas unidades do Bom Prato, que oferece refeições acessíveis, e o Serviço de Acolhimento Terapêutico Residencial, focado na autonomia de pessoas com dependência química, incluindo renda e moradia. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania foi procurado, mas ainda não se manifestou sobre os dados.
