# Filha de Chico Mendes Defende Protagonismo dos Povos da Floresta na COP30
Ângela Maria Feitosa Mendes tornou-se uma ativista ambiental de referência, tal como seu pai, Chico Mendes. Ele foi assassinado aos 44 anos a mando de fazendeiros em 1988, na casa onde morava em Xapuri, interior do Acre, por sua luta em defesa da floresta e de seus povos. Atualmente, ela comanda o Comitê Chico Mendes, espaço que reúne ativistas por justiça social que se identificam com a luta do Mártir da Floresta que, se estivesse vivo, completaria 81 anos em dezembro.
Na noite de 22 de dezembro de 1988, quando Chico Mendes saía para tomar banho no quintal de sua casa em Xapuri, foi alvejado por disparos de escopeta. O crime ocorreu exatamente uma semana após completar 44 anos. Os responsáveis foram o fazendeiro Darly Alves da Silva e seu filho, Darci Alves Pereira, que efetuou os disparos. Dois anos depois, em dezembro de 1990, a Justiça condenou ambos a 19 anos de prisão. O comitê que leva o nome de Chico Mendes foi criado na noite do assassinato por lideranças políticas e de direitos humanos para exigir que o crime não ficasse impune.
Em vida, o líder seringueiro lutou contra as condições precárias de trabalho de sua categoria, que praticamente vivia em estado de semiescravidão. Ao mesmo tempo, levantou a voz para denunciar aqueles que financiavam a destruição da floresta amazônica. Chico ajudou a criar a Aliança dos Povos da Floresta, em meados dos anos de 1980, reunindo lideranças dos povos indígenas e seringueiros do Brasil que se uniram para reivindicar demarcações de territórios e a criação de reservas extrativistas. Em uma justa homenagem, seu nome batiza a autarquia responsável pela gestão das Unidades de Conservação federais do país: o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Participando da COP30 em Belém, Ângela Mendes defende que as conferências climáticas avançaram muito pouco no que diz respeito aos direitos das populações que habitam esses territórios estratégicos. Em sua avaliação, existe um grande desafio para que as pessoas da floresta acessem políticas públicas que lhes garantam viver com dignidade. Ela enfatiza a necessidade de alianças para enfrentar a crise ambiental, seguindo o exemplo deixado por seu pai com as lideranças indígenas que formaram a aliança original na década de 1980.
A ativista ressalta a importância de compreender que todos os biomas estão integrados e conectados, cada um com sua cultura que representa uma forma de resistência ao modo de vida capitalista. Para Ângela, existe hoje uma sensação de impunidade, legado deixado pelo governo Bolsonaro, que permitiu que sistemas entranhados nos espaços de poder defendessem os interesses do capitalismo em detrimento do direito de quem luta para sobreviver nos territórios.
Atualmente, as ações do Comitê Chico Mendes se dedicam também à formação de jovens e mulheres que vivem na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre. A inspiração para o trabalho parte de uma carta escrita por Mendes pouco antes de morrer e dedicada aos jovens do futuro. Nela, o seringueiro comemora a existência de um mundo que superou a exploração e onde resta “somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte”. A existência de cooperativas na região da Resex, como a Cooperacre e a Cooperxapuri, representa uma maneira segura de viver da floresta sem precisar derrubar árvores, atuando como intermediárias que transportam produtos dos moradores e revendem para fornecedores nacionais e internacionais.
Ângela Mendes percorre o mundo em defesa dos povos amazônicos, honrando a memória e mantendo vivos os ideais de Chico Mendes. “Desculpem. Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado”, finalizava a carta de seu pai, um sonho que sua filha segue transformando em ação na luta pelo meio ambiente e pela justiça social.
