Hoje, no Teatro Raimundo Magalhães Jr., na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, o clima era de celebração e esperança. A Universidade das Quebradas, projeto criado por Heloísa Teixeira e Numa Ciro para formar escritores originários das periferias do país, festejou a formatura de 46 novos artistas, entre eles, o jovem Ismael Queiroz Dias, de 29 anos — autor da coletânea de contos *A Cidade Maravilhosa dos Milicianos: Compêndio Poético*, lançada em 2022. Ismael, que se define como indígena, negro e caucasiano, declarou que, pelas suas vivências, pertence a muitas partes do Brasil. Ele contou que chegou ao curso com certo receio, mas encontrou, entre colegas já publicados e iniciantes, um ambiente de companheirismo e de intenso aprendizado.
Foi Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a se tornar imortal da Academia Brasileira de Letras, quem abriu a cerimônia com palavras firmes e poéticas: “Eu acredito que tudo de mais interessante, tudo de novo, tudo de ousado, tudo com potência de mudar a sociedade brasileira, vem das periferias, vem das quebradas”. A escritora, eleita para a cadeira de número 33 com 30 dos 31 votos possíveis, já é considerada uma das mais importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, autora do livro *Um Defeito de Cor*, um romance histórico de mais de 900 páginas, vencedor do Prêmio Casa de las Américas em 2007 e eleito como uma das melhores obras do século 21 por júri da Folha de S. Paulo.
A trajetória de Ana Maria Gonçalves é marcada pela ousadia. Mineira de nascimento, abandonou uma carreira de publicidade em São Paulo para se dedicar à escrita e à curadoria de projetos culturais. Já como professora e dramaturga, sempre colocou no centro de sua obra o debate sobre ancestralidade negra, o protagonismo da mulher negra na história brasileira e a denúncia do racismo estrutural. Agora, na ABL, instituição fundada há 128 anos e historicamente dominada por intelectuais homens e brancos, sua presença é ao mesmo tempo reparação histórica e promessa de transformação.
Durante a cerimônia, ficou claro que, para muitos dos formandos e para a própria Ana Maria Gonçalves, ocupar espaços de poder simbólico no campo artístico é mais do que uma conquista pessoal — é parte de um movimento coletivo, baseado na potência das narrativas periféricas e na resistência ao apagamento de histórias negras e indígenas. A fala da nova imortal reverberou entre os jovens, reafirmando o desejo de que a literatura continue se abrindo para novos autores, novas identidades e novas formas de contar o Brasil.
O momento é considerado um marco não só para a Academia Brasileira de Letras, mas para a cultura nacional, que começa a reconhecer, com atraso, mas com intensidade, a pluralidade de vozes que compõem o país. Ana Maria Gonçalves, símbolo dessa virada, reforçou o compromisso de usar sua trajetória para abrir portas, inspirar mudanças e enfrentar os desafios persistentes da falta de representatividade nas artes e na literatura. “Minha chegada aqui não é solitária. Venho a partir de uma tradição de luta e ancestralidade”, disse em entrevistas recentes. A agenda, agora, é ampliar esse movimento — dentro e fora dos muros da Academia.
