O governo federal está promovendo um debate público com a sociedade e o Congresso Nacional sobre a proposta de redução da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais no Brasil. A proposta inclui o fim da escala de seis dias de trabalho para um de descanso (6×1), substituindo-a por cinco dias de trabalho e dois de folga (5×2), visando melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.
Denise Ulisses, cobradora de ônibus no Distrito Federal, exemplifica a rotina desafiadora da escala 6×1. Há 15 anos, ela trabalha seis horas diárias de segunda a sábado, com folga apenas aos domingos. Com a mudança proposta, Denise planeja aproveitar melhor seu tempo livre, como passar fins de semana no sítio.
A pauta é considerada prioritária pelo governo. A ministra Gleisi Hoffmann destaca que a carga de trabalho 6×1 impacta principalmente as mulheres, que enfrentam a dupla jornada de trabalho remunerado e doméstico. Dados do IBGE mostram que as mulheres dedicam quase o dobro de tempo aos afazeres domésticos em comparação aos homens.
Sandra Kennedy, do Ministério das Mulheres, afirma que a desigualdade de gênero é um fator estrutural a ser enfrentado para reduzir a sobrecarga feminina. Ela destaca que a divisão de tarefas domésticas deve ser mais equitativa entre homens e mulheres.
Tiffane Raane, auxiliar de serviços gerais, expressa o impacto do excesso de trabalho em sua vida pessoal e financeira. Com uma rotina exaustiva, ela adia o retorno à faculdade de educação física, enquanto lida com os cuidados do filho pequeno.
A Articulação Nacional de 8 de Março entregou um manifesto ao Ministério das Mulheres, pedindo o fim da escala 6×1. O documento critica o modelo atual por intensificar desigualdades e afetar a dignidade dos trabalhadores.
Uma pesquisa da Nexus revela que 84% dos brasileiros apoiam dois dias de descanso semanal, e 73% são favoráveis ao fim da escala 6×1, desde que os salários sejam mantidos. Jeisiane Magalhães, balconista, reforça a importância do descanso para melhorar o rendimento no trabalho.
Apesar do apoio popular, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação Nacional do Comércio (CNC) alertam para possíveis impactos econômicos negativos, como aumento de custos e preços. A CNC defende que mudanças sejam feitas via negociação coletiva.
Sandra Kennedy contesta essas preocupações, afirmando que historicamente, melhorias nas condições de trabalho sempre enfrentaram resistência. O estudo do Cesit/Unicamp projeta que a mudança poderia gerar milhões de empregos e aumentar a produtividade.
A proposta está em discussão na Câmara dos Deputados, com previsão de votação em maio. O governo, através do ministro Luiz Marinho, considera enviar um projeto de lei com urgência caso o tema não avance rapidamente.
Uma petição pública criada pelo Movimento Vida Além do Trabalho já conta com quase 3 milhões de assinaturas, pedindo um modelo de trabalho mais flexível e saudável.
