Em dezembro de 1970, o empresário suíço Anton Von Salis, então presidente da Swisscam, justificou os baixos salários pagos aos trabalhadores brasileiros em comparação com os europeus, destacando as diferenças de necessidades devido ao clima tropical do Brasil. Von Salis afirmou que o golpe militar no Brasil proporcionou estabilidade e oportunidades lucrativas para o capital suíço.
Um estudo de Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, revelou que as multinacionais suíças lucraram significativamente com o regime militar brasileiro, que reprimiu sindicatos e greves. Em 1971, os salários pagos no Brasil eram, para trabalhadores sem qualificação, apenas um quinto do que se pagava na Suíça. Para mão de obra qualificada, os salários eram pouco mais da metade dos suíços.
O livro de Gabriella, ‘Don’t Miss The Bus’, destaca que as empresas suíças aproveitaram a ausência de impostos e a mão de obra barata no Brasil durante a ditadura. Segundo Marco Antônio Rocha, da Unicamp, a política de valorização do salário mínimo foi um dos motivos do golpe de 1964, com os militares rapidamente alterando essa política, levando a uma perda significativa do poder de compra dos trabalhadores.
Gabriella estimou que as 14 maiores multinacionais suíças lucraram 80 milhões de francos suíços em 1971 devido aos baixos salários no Brasil. Entre 1964 e o final dos anos 1970, a Suíça foi um dos principais investidores no Brasil, com investimentos per capita significativamente maiores que outros países.
Em 1973, o investimento suíço no Brasil foi de 1,1 bilhão de francos suíços, triplicando em quatro anos. Empresas suíças atuavam em diversos setores, incluindo alimentação e bancos. Questionado sobre violações de direitos humanos, Von Salis minimizou as denúncias.
Durante a entrevista de Von Salis à RTS, o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher estava sequestrado por Carlos Lamarca, da Vanguarda Popular Revolucionária. Bucher foi libertado após 40 dias, em troca da liberdade de 70 presos políticos. Sequestros de diplomatas eram comuns na época como forma de resistência ao regime militar.
O governo suíço, em resposta a consultas sobre seu papel durante a ditadura, afirmou que análises detalhadas exigiriam pesquisas históricas profundas, mas saudou estudos independentes sobre o assunto. A Swisscam não permitiu acesso a seus arquivos nem comentou as questões levantadas.
