Um levantamento nacional inédito acaba de revelar quais são os 100 melhores hospitais públicos do Brasil, jogando luz sobre unidades que, em geral, aparecem no noticiário associadas a filas, superlotação e dificuldades diárias. O estudo, coordenado pelo Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (Ibross) em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS), Instituto Ética Saúde (IES), Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), servirá como etapa classificatória para o Prêmio Melhores Hospitais Públicos do Brasil, cuja premiação está prevista para maio deste ano.
Embora o estado de São Paulo ainda concentre a maior parte das unidades de destaque – 30 dos 100 melhores hospitais públicos do país –, o levantamento mostra uma distribuição mais equilibrada do que em anos anteriores, com 19 estados e o Distrito Federal presentes na lista. Depois de São Paulo, Goiás desponta com 10% do total de hospitais selecionados. Em seguida aparecem Pará e Santa Catarina, cada um com 7%, Pernambuco e Rio de Janeiro, com 6% cada, Paraná com 5%, além de Amazonas, Bahia, Distrito Federal e Maranhão, todos com 3%. Minas Gerais também responde por 3% das unidades. Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Tocantins aparecem com 2% cada, enquanto Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe têm 1% dos hospitais classificados.
Segundo os organizadores, a diferença em relação a São Paulo se explica pelo maior número de hospitais públicos que atendem integralmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no estado, tanto em termos absolutos quanto proporcionais. Das 30 instituições paulistas destacadas, 17 são estaduais e o restante é composto por hospitais municipais. A predominância paulista, porém, não impede que outras regiões ganhem visibilidade, especialmente aquelas que conseguiram estruturar redes próprias de atenção hospitalar com foco em qualidade assistencial.
Para o médico sanitarista Renilson Rehem, ex-presidente do Ibross e coordenador do estudo, o objetivo central não é criar uma disputa entre estados, mas valorizar o trabalho de quem consegue oferecer atendimento de qualidade em meio às limitações do sistema público. Ele defende que o reconhecimento tem efeito direto no fortalecimento do SUS. Ao destacar os melhores hospitais públicos, afirma, é possível construir uma pauta positiva para instituições que costumam ser lembradas apenas em contextos de crise, falta de leitos, demora em atendimentos e problemas de infraestrutura.
A metodologia adotada buscou ir além da percepção subjetiva de qualidade. A pesquisa avaliou a acreditação hospitalar – processo voluntário por meio do qual serviços de saúde se submetem a padrões rigorosos de qualidade e segurança – e indicadores de desempenho assistencial e de gestão. Entre os critérios principais estão taxas de ocupação e de mortalidade, disponibilidade de leitos de terapia intensiva e o tempo médio de permanência dos pacientes internados. O conjunto desses indicadores permite comparar hospitais de perfis diferentes, apontando aqueles que conseguem conciliar eficiência, resolutividade e segurança do paciente.
Foram considerados na lista apenas serviços hospitalares mantidos por governos federal, estaduais ou municipais que prestam assistência 100% pelo SUS, sem qualquer tipo de atendimento por operadoras de planos de saúde. Além disso, as unidades precisavam se enquadrar como hospitais gerais – adultos, pediátricos ou mistos – ou especializados em ortopedia, oncologia, cardiologia ou maternidade. Ficaram de fora hospitais psiquiátricos e instituições de longa permanência, que têm características assistenciais e parâmetros de avaliação específicos.
Outro recorte importante foi o porte e a atividade das unidades. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, todos os hospitais analisados tinham obrigatoriamente mais de 50 leitos e produção registrada no Sistema de Informações Hospitalares (SIH) do Ministério da Saúde, o que assegura um volume mínimo de atendimentos e dados suficientes para avaliação. Esse filtro impede que pequenos serviços com baixa demanda sejam comparados diretamente com grandes hospitais de referência, cujo perfil de complexidade e de risco é muito diferente.
Ao estabelecer esse recorte e dar visibilidade nacional aos resultados, os idealizadores do prêmio esperam estimular um ciclo de melhoria contínua na rede pública. A expectativa é de que o reconhecimento público sirva de incentivo para equipes, direções hospitalares e gestores de saúde, além de orientar políticas públicas, investimentos e parcerias. Ao mesmo tempo, o ranking oferece ao cidadão um retrato detalhado de onde a rede pública tem conseguido entregar melhor desempenho, o que pode influenciar decisões de encaminhamento da própria gestão e pautar debates sobre equidade regional no acesso a serviços de alta qualidade.
Para especialistas envolvidos no levantamento, premiar e divulgar boas experiências é também uma forma de mostrar que o SUS é capaz de gerar resultados de excelência quando há planejamento, gestão eficiente e compromisso com a qualidade. Em um país marcado por desigualdades e por grandes desafios na saúde pública, a lista dos 100 melhores hospitais funciona como vitrine e, ao mesmo tempo, como mapa de referências para que outras unidades possam aprender, adaptar e replicar práticas bem-sucedidas.
