Livro apresenta contrastes do Rio ao examinar linha de ônibus 474

Na capital fluminense, a linha de ônibus 474, que liga o Largo do Jacaré, na Zona Norte, ao Posto 6 de Copacabana, na Zona Sul, revela as profundas desigualdades da metrópole, conhecida como a “cidade partida”. Batizada por muitos como a “linha do terror” ou “linha do inferno”, ela é essencial para o dia a dia de trabalhadores que cruzam 22 quilômetros em cerca de 80 minutos, em veículos com capacidade para até 70 passageiros, operando 24 horas por dia, sete dias por semana, com paradas em 50 pontos estratégicos[1][5].

Criada em 1949 a partir de uma antiga linha de bonde operada pela Braso Lisboa, a 474 completou 70 anos em 2019 e acumulou polêmicas ao longo de sua história[1]. De segunda a sexta-feira, seu trajeto principal transporta mão de obra barata de bairros pobres e industriais decadentes da Zona Norte, como o Jacarezinho – uma das favelas mais vulneráveis da cidade –, para áreas centrais e nobres da Zona Sul, onde esses moradores prestam serviços domésticos, no comércio e em restaurantes[3][9]. Nos fins de semana, especialmente entre setembro e março, quando o sol intenso castiga, a dinâmica muda: o ônibus vira rota de subversão, levando populações periféricas às praias de Copacabana, Ipanema e Arpoador em busca de lazer e alívio do calor, invertindo sua função servil cotidiana[9].

Essa conexão expõe fraturas sociais gritantes. O arquiteto e urbanista Gabriel Weber, em seu livro *474: Jacaré/Copacabana*, publicado pela Subinfluencia Edições em versão de bolso de 127 páginas, descreve as distâncias físicas e simbólicas percorridas pelo coletivo, que une territórios dependentes em uma relação ambígua e simbiótica[5]. Weber, crescido próximo ao Jacarezinho, retrata a linha não como mero transporte, mas como sistema de segregação multiescalar, com relatos episódicos de um sábado ensolarado, levantamentos in loco nos ônibus e reflexões sobre o desconforto projetado para maximizar lucros[7].

A fama negativa da 474 vem de assaltos frequentes, arrastões e percepções externas de moradores de bairros ricos como Leblon e Ipanema, que a veem como vetor de criminalidade[1]. Grupos de WhatsApp e abaixo-assinados pressionaram por mudanças, levando a intervenções como a “Operação Verão”, com blitzes policiais nos acessos a túneis como o Santa Bárbara[1]. Nessas ações, homens negros são alvos prioritários, exigindo passagem de volta, identidade e carteira de trabalho – documentos raros na informalidade carioca –, criando barreiras ao lazer periférico em um desenho urbano que limita o acesso a águas limpas, já que a Baía de Guanabara serve de esgoto[1].

Alterações no itinerário marcaram os anos recentes. Em 2015, sob pressão de moradores da Zona Sul e com aval do então governador Luiz Fernando Pezão, a linha foi encurtada de Ipanema para Copacabana, passando pelo Túnel Santa Bárbara em vez do Centro, o que reduziu passageiros para cerca de 240 mil mensais[1]. Para compensar, surgiu a variante SV474 via Aterro do Flamengo e Túnel Prefeito Marcello Alencar, que ganhou popularidade por vias menos congestionadas[1]. Em 2018, ajustes incluíram o bairro do Catumbi e, à noite, a Lapa e Praia do Flamengo[1].

Apesar das controvérsias, a 474 permanece vital, costurando a “cidade maravilhosa” com suas contradições. No ponto final em Copacabana, próximo ao shopping Cassino Atlântico, o ciclo se repete: o motorista desliga o motor, faz uma pausa e reinicia o retorno ao Jacaré, simbolizando a persistência de uma rotina cíclica de idas e vindas entre mundos opostos[5].

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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