Lula acusa Israel de “vitimismo”, e volta a falar em “genocídio” na Faixa de Gaza

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar duramente o governo de Israel nesta semana, acusando-o de praticar “vitimismo” enquanto prossegue com o que Lula novamente classificou como um “genocídio” contra o povo palestino na Faixa de Gaza. As declarações inflamam ainda mais um debate já acalorado, tanto na arena diplomática internacional quanto na sociedade civil, sobre a natureza do conflito e os limites da crítica ao Estado de Israel.

As falas do presidente ecoam comentários anteriores que geraram crises diplomáticas e intensas discussões sobre a diferença fundamental entre antissemitismo – comumente associado ao ódio ou preconceito contra judeus – e antissionismo, a oposição ao projeto político do sionismo e às políticas do Estado de Israel.

Uma recente reportagem da BBC Brasil sobre o tema (https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4g2xk2lzm1o) é um exemplo de como a distinção entre esses dois conceitos pode se tornar nebulosa na grande mídia. Em determinado trecho, o artigo afirma: “Quando as pessoas criticam Israel de forma agressiva pode ser difícil saber se a crítica é motivada ou não por antissemitismo”.

Contudo, essa distinção não é inerentemente complexa. A diferenciação na verdade é simples: basta questionar o interlocutor se a crítica é dirigida ao povo judeu em sua totalidade ou especificamente às ações e políticas do governo israelense. O governo de Israel, como qualquer entidade política, é passível de críticas, inclusive internas. Recentemente, figuras proeminentes da política israelense, incluindo seu ex-primeiro-ministro, têm expressado publicamente discordâncias contundentes com as atuais lideranças e suas conduções, demonstrando que a crítica ao governo não é monopólio externo nem intrinsecamente odiosa.

O debate pode alcançar até mesmo a fundação do Estado de Israel, em 1948, que foi marcada não apenas pela realização do projeto sionista de criar um “Estado judeu”, mas também pela expulsão em massa de cerca de 750 a 800 mil palestinos de suas casas, vilarejos e cidades, episódio que ficou conhecido como Nakba, ou “catástrofe” em árabe. Essa expulsão, acompanhada da destruição de centenas de localidades palestinas e do confisco de terras, consolidou o novo Estado e inaugurou uma crise de refugiados que permanece sem solução até hoje. O debate sobre a necessidade histórica dessa expulsão é central para compreender o caráter do projeto político que se estabeleceu: teria a Nakba sido uma tragédia inevitável diante do contexto de guerra, ou foi a expressão de um plano deliberado de limpeza étnica e segregação, já presente no ideário sionista desde o fim do século XIX?

Levantar tais questionamentos, no entanto, tornou-se cada vez mais sensível no debate público internacional. A adoção de definições amplas de antissemitismo, como a da IHRA (Aliança Internacional para a Lembrança do Holocausto), tem sido criticada por estudiosos e movimentos sociais por, na prática, blindar Israel de críticas substanciais ao associar denúncias de limpeza étnica e colonialismo ao antissemitismo. Por oportuno, note-se que o Projeto de Lei 472/25 de autoria do Deputado General Pazuello do PL (sim, o ex-ministro da saúde durante o governo Bolsonaro), atualmente em análise pela Câmara dos Deputados, prevê a adoção, no território nacional, da definição de antissemitismo da IHRA, vedando a distorção, a negação, o relativismo ou revisionismo histórico do Holocausto. Curioso é a definição adotada no Projeto, que “o antissemitismo é uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação a esse povo” sem no entando considerar, como veremos, que os palestinos também podem ser considerados “povos semitas” e, por essa lógica, ódio ao povo palestino também deveria ser caracterizado como antissemitismo.

A recente declaração do deputado General Pazuello, ao afirmar que qualquer atitude que questione a legitimidade do Estado de Israel ou minimize a gravidade do Holocausto será tratada como antissemitismo, demonstra um movimento preocupante de equiparação entre críticas políticas legítimas e práticas discriminatórias, como o antissemitismo e a negação do Holocausto. Essa confusão, muitas vezes intencional (ou propagandística), acaba por silenciar debates fundamentais sobre direitos humanos e justiça histórica, ao colocar no mesmo patamar a negação de crimes contra a humanidade e a análise crítica de políticas de Estado. É importante lembrar que o princípio do “nunca mais” — “never again” — não pode ser restrito a um único povo ou episódio histórico. Ele deve servir como alerta universal contra todas as formas de genocídio e opressão, seja contra judeus, indígenas nas Américas, africanos vítimas do tráfico transatlântico, ou qualquer outro grupo, cujos exemplos, infelizmente, não são poucos ao longo da história.

Nesse contexto, especialistas e defensores dos direitos humanos alertam para o risco de se restringir a liberdade de expressão e o debate acadêmico ao rotular como antissemitismo qualquer crítica ao Estado de Israel, inclusive aquelas que questionam fatos históricos como a Nakba. Um Projeto de Lei como o 472/25 tem o potencial de empobrecer a discussão pública, mas também dificulta a compreensão das raízes e dinâmicas do conflito israelo-palestino. Reconhecer a gravidade do Holocausto e combater o antissemitismo são tarefas essenciais, mas isso não pode servir de pretexto para impedir o exame crítico de políticas contemporâneas de Estado e e muito menos de qualquer que seja o Governo de plantão. Afinal, o compromisso com a memória histórica e a justiça deve ser universal e intransigente, abrangendo todos os povos e episódios de sofrimento humano, como previsto na Carta da ONU.

Além da propaganda: antissemitismo vs. antissionismo

Mas afina de contas, qual é a diferença entre os termos?

  • Antissemitismo: pode ser definido como o preconceito, discriminação ou hostilidade dirigida aos povos semitas, especialmente aos judeus, mas, em sentido etimológico mais amplo, também a outros grupos que compartilham raízes linguísticas e culturais semitas, como os árabes. Historicamente, o termo passou a ser empregado predominantemente para designar o ódio e a perseguição contra judeus, manifestando-se por meio de estereótipos, teorias da conspiração, exclusão social e violência sistemática. No entanto, é importante reconhecer que, em sua origem, o conceito abrange aversão a todos os povos semitas, ainda que, no uso corrente, tenha se consolidado como sinônimo de anti-judaísmo. O antissemitismo, portanto, é uma forma de racismo e intolerância que se manifesta tanto em discursos quanto em práticas institucionais, devendo ser combatido em todas as suas expressões — sem, contudo, confundir críticas legítimas a governos com preconceito étnico ou religioso.
  • Antissionismo: Consiste na oposição ao sionismo como ideologia política, movimento de cunho nacionalista, que defende o estabelecimento e a manutenção de um Estado judeu na Palestina histórica. O antissionismo, portanto, critica as políticas e ações do Estado de Israel, incluindo a ocupação de territórios palestinos, o tratamento dispensado aos palestinos e as leis que podem ser vistas como discriminatórias. Criticar o governo de Israel, suas políticas específicas, ou mesmo a fundamentação do Estado nos moldes atuais, não configura, por si só, antissemitismo.

É possível afirmar que a confusão entre antissemitismo e antissionismo, e a aplicação quase generalizada do termo “antissemita”, é frequentemente uma tática deliberada utilizada pela propaganda de guerra do governo de Israel (mais uma vez, ‘governo’, não Estado, ‘governo’, não povo). O objetivo, segundo essa visão, seria deslegitimar qualquer crítica às suas políticas, equiparando-as automaticamente ao ódio contra o povo judeu, silenciando assim vozes dissidentes e minando o apoio à causa palestina.

Quem são os povos “semitas”?

Outro aspecto frequentemente negligenciado, mas essencial para qualificar o debate, reside na compreensão precisa do termo “semita”. De origem bíblica, “semita” refere-se aos descendentes de Sem, filho de Noé, e, ao longo dos séculos, passou a designar um amplo conjunto de povos que compartilham raízes linguísticas e culturais, como árabes, hebreus, aramaicos, fenícios e assírios, entre outros. Essa família linguística, que engloba línguas como o hebraico, o árabe e o aramaico, revela que o conceito de “semita” extrapola a identificação exclusiva com o povo judeu e abarca também os palestinos, enquanto povo árabe. Dessa forma, a etimologia e a história do termo desmontam a ideia de que “antissemitismo” se restrinja ao preconceito contra judeus, ainda que, no uso corrente, ele tenha adquirido esse significado específico a partir do trágicos acontecimentos do século XX.

Sob essa perspectiva, rotular como “antissemita” todo aquele que denuncia violações de direitos humanos contra palestinos — eles próprios parte do tronco semita — revela uma contradição conceitual e política intransponível. É paradoxal que defensores da autodeterminação palestina, ao se oporem a políticas de segregação e violência, sejam acusados de antissemitismo, quando, na verdade, estão defendendo os direitos de um povo igualmente semita.

As recentes declarações do presidente Lula, ao condenar de forma veemente a ofensiva israelense em Gaza e qualificar as ações do governo de Benjamin Netanyahu — atualmente alvo de um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e contra a humanidade — como genocídio, ressaltam a necessidade urgente de distinguir entre a crítica legítima a governos e políticas de Estado e o preconceito étnico ou religioso, este sim inaceitável sob qualquer circunstância. Ao trazer à tona o princípio ético do “nunca mais”, Lula amplia o debate para além das fronteiras nacionais ou identitárias, reafirmando que a memória histórica das tragédias humanas deve servir como um alerta universal: o combate ao genocídio e à opressão não pode ser privilégio de um único povo, mas um compromisso coletivo da humanidade, independentemente de quem sejam as vítimas ou os algozes.