Escritora, poetisa, mãe de três crianças e companheira dedicada, Renee Nicole Good, 37 anos, foi morta a tiros por um agente do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) em uma rua residencial de Minneapolis, no estado de Minnesota. Sua morte rapidamente se tornou um novo símbolo da violência estatal nos Estados Unidos. O episódio, ocorrido em plena luz do dia, durante uma grande operação federal de imigração, desencadeou protestos em várias cidades e reacendeu o trauma de uma população que ainda carrega as marcas do assassinato de George Floyd na mesma cidade.
Na manhã de quarta-feira, Renee estava em seu carro, parado nas proximidades de uma ação do ICE no bairro Central, quando foi abordada por agentes federais. Testemunhas relataram que ao menos três agentes cercaram o veículo: dois de cada lado e um terceiro tentando abrir a porta do lado do motorista. Em poucos instantes, a abordagem se transformou em uma sequência de tiros disparados à queima-roupa através do vidro da janela, atingindo a cabeça de Renee. Ela ainda foi levada a um hospital, mas não resistiu aos ferimentos.
Logo após a morte, autoridades federais divulgaram a versão de que o agente teria agido em legítima defesa, alegando que Renee usou o carro como arma ao tentar atropelar os oficiais. O governo descreveu a situação como um ato de “terrorismo doméstico” e afirmou que a vida do agente e de seus colegas corria perigo. Essa narrativa foi imediatamente contestada por moradores que presenciaram a cena e por lideranças locais, que afirmam que o veículo não avançou em direção aos agentes de forma a justificar o uso letal da força.
O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, criticou publicamente a versão oficial e classificou a justificativa de autodefesa como uma mentira. Para ele, o que ocorreu foi resultado de um uso “imprudente” do poder por parte de um agente federal, que terminou na morte de uma moradora que não representava ameaça iminente. O Conselho da Cidade de Minneapolis divulgou uma nota dura, afirmando que qualquer pessoa que mate alguém na cidade deve ser presa, investigada e processada nos termos da lei, independentemente de ser ou não agente do governo federal. No comunicado, as autoridades municipais destacaram que Renee era uma residente que estava “cuidando de seus vizinhos” naquela manhã.
A história de vida de Renee contrasta com a imagem de ameaça pintada pelo governo federal. Nascida em Colorado Springs, no Colorado, ela estudou Escrita Criativa na Old Dominion University, na Virgínia, e construiu uma trajetória ligada à literatura, à poesia e à comunicação. Além de escrever, mantinha um programa em áudio na internet e gostava de maratonas de filmes em casa. Mãe de três filhos, dois de um primeiro casamento e o caçula, de seis anos, fruto da relação com Tim Macklin – que morreu em 2023 –, Renee era vista pela família e por amigos como alguém movida pela compaixão.
Sua mãe, Donna Ganger, descreveu a filha como uma pessoa amorosa, afetuosa e dedicada a cuidar dos outros. Em entrevista à imprensa local, disse que Renee passou a vida ajudando pessoas e que não era ativista nem militante de nenhuma organização. Segundo Donna, a filha “não fazia parte de nada”, no sentido de não integrar grupos políticos ou movimentos organizados, embora se preocupasse com o que acontecia em sua comunidade.
Morando há cerca de um ano em Minnesota, Renee vivia com sua companheira e era conhecida pelos vizinhos como alguém que se interessava pelo bem-estar das pessoas ao redor. Lideranças comunitárias afirmam que, no momento em que foi baleada, ela atuava como observadora legal, uma voluntária que acompanha e monitora ações policiais e de autoridades com o objetivo de prevenir abusos e registrar eventuais excessos. Não se trataria, portanto, de uma manifestante agressiva ou de uma pessoa envolvida em confrontos físicos, mas de alguém empenhada em acompanhar, de forma pacífica, a atuação de agentes públicos.
Nas horas seguintes ao anúncio de sua morte, moradores se reuniram no cruzamento onde o carro de Renee foi alvejado. Flores, cartazes e velas passaram a ocupar a calçada, formando um memorial improvisado. À medida que a notícia se espalhava, centenas de pessoas foram às ruas em Minneapolis, caminhando do local do assassinato até a prefeitura, em atos que misturavam luto, indignação e exigência de responsabilização. Gritos contra a presença do ICE na cidade e pedidos para que a agência deixe Minnesota ecoaram pelas manifestações.
O caso rapidamente ultrapassou as fronteiras da cidade. A forma como o governo federal caracterizou a vítima e justificou o disparo provocou forte reação de políticos, defensores de direitos civis e organizações que monitoram a violência estatal. Parlamentares democratas pediram investigação criminal independente, argumentando que a morte de uma cidadã desarmada em um bairro residencial, durante uma operação de imigração, expõe uma escalada preocupante na postura de forças federais em áreas urbanas.
Minneapolis, que em 2020 se tornou centro de um movimento global após o assassinato de George Floyd por um policial, volta a ser cenário de confronto direto entre a população e agentes armados do Estado. Imagens da rua cercada por viaturas e de manifestantes erguendo cartazes com o nome de Renee foram difundidas pelo país, alimentando o debate sobre o uso indiscriminado da força, a atuação do ICE e o papel do governo federal sob o comando de Donald Trump na condução de operações classificadas como de “máxima agressividade”.
Enquanto investigações oficiais tentam reconstituir cada segundo da abordagem que tirou a vida de Renee, a disputa de narrativas se intensifica. De um lado, autoridades federais reforçam a tese de que o agente reagiu para salvar a própria vida e a de colegas. De outro, moradores, familiares, lideranças locais e parte da classe política afirmam que o episódio poderia ter sido evitado e que a morte de Renee é fruto de uma combinação de excesso de poder, retórica incendiária vinda de Washington e presença ostensiva de forças federais em bairros residenciais.
No centro desse embate está a memória de uma mulher descrita pelos que a conheciam como alguém guiado pela empatia, pela preocupação com o outro e pelo desejo de proteger quem estivesse por perto. Para sua família, amigos e muitos moradores de Minneapolis, o que se busca agora é que sua morte não seja apenas mais um registro em um longo histórico de violência oficial, mas o ponto de partida para responsabilização e mudança.
