Mães de mortos questionam operação no Rio: “Arrancaram o braço dele”

Na manhã desta quarta-feira, 29 de outubro, a Praça São Lucas, no complexo da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, transformou-se em palco de um dos episódios mais chocantes da recente história brasileira. Filas de corpos estendidos no chão, cobertos por lençóis, chamuscaram as telas de brasileiros e do mundo todo, trazendo à tona não só a violência como o luto coletivo de uma comunidade inteira. O cenário era de dor silenciosa: ao lado dos mortos, mães, irmãs e esposas, em sua maioria mulheres, choravam, abraçavam-se, questionavam em voz alta o que consideram um excesso de barbárie por parte do Estado. Os corpos, muitos deles trazidos por moradores nas caçambas de caminhonetes durante a madrugada, eram resultado direto da chamada Operação Contenção, megaoperação policial deflagrada na véspera contra o Comando Vermelho, com o objetivo declarado de prender lideranças e conter a expansão territorial da facção criminosa.

O saldo oficial da operação, segundo o governo do Rio de Janeiro, foi de 64 mortos, sendo quatro policiais e 60 suspeitos de envolvimento com o tráfico. Mais de 80 pessoas foram presas e quase 100 fuzis apreendidos, em uma ação considerada a mais letal da história do estado, superando inclusive a chacina do Jacarezinho, ocorrida em 2021. O aparato mobilizou 2.500 policiais civis e militares, com uso de drones, helicópteros, veículos blindados e demolição, além de centenas de mandados judiciais cumpridos após mais de um ano de investigação. As imagens de confronto, barricadas em chamas, bloqueios de ruas com ônibus tomados, pneus queimados e o colapso no transporte urbano marcaram o cotidiano da cidade, que viveu horas de tensão no que a população local descreve como um verdadeiro cenário de guerra.

Mas, enquanto o governo estadual defendia a operação como “extremamente planejada e estudada”, criticando a falta de apoio do governo federal, o impacto real recaiu sobre os moradores do Alemão e da Penha. Além da violência, escolas, unidades de saúde e o comércio fecharam as portas por segurança, deixando a comunidade ainda mais vulnerável. Os relatos dos familiares, porém, vão além do enfrentamento entre polícia e criminosos. Segundo Elieci Santana, de 58 anos, seu filho Fábio Francisco Santana, de 36, mandou mensagem dizendo que se entregaria e compartilhando sua localização para a polícia. Ele saiu algemado, mas, segundo a mãe, teve o braço arrancado “no lugar da algema”. O relato de execuções mesmo após rendição e de pessoas mortas ou feridas sem atendimento é frequente entre os parentes reunidos na praça.

Tauã Brito, confeiteira, conta que seu filho Wellington morreu no confronto. Ela afirma que muitos jovens baleados ainda estavam vivos, abandonados na mata, enquanto moradores não tinham permissão para socorrê-los imediatamente. “Ontem eu fui lá no Getúlio [Hospital Getúlio Vargas] pedir para subirem com a gente, para gente poder salvar esses meninos. Ninguém podia subir. Eles estavam vivos”, relata. Somente após o recuo das forças policiais, à noite, os familiares puderam buscar seus filhos e parentes feridos ou mortos nas áreas de mata, em uma verdadeira peregrinação pelo direito de velar seus próprios mortos.

O episódio levou a protestos na Praça São Lucas, com moradores exigindo responsabilização, transparência e o fim do que classificam como extermínio de jovens negros e pobres das periferias do Rio. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) manifestou repúdio à ação, exigindo investigação independente e política de segurança pública que priorize a vida e os direitos humanos.

Enquanto isso, a Justiça Federal, o Ministério Público e a Defensoria Pública pressionam por perícias, acesso a imagens de câmeras corporais e relatórios operacionais, diante da suspeita de violações graves e do descontrole na condução da operação. O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, reativou a ADPF 635, que disciplina o uso da força policial em favelas, e cobrou manifestação urgente da Procuradoria-Geral da República.

A Praça São Lucas, nesta manhã, mais do que um espaço de duelo entre forças da ordem e crime organizado, foi símbolo das cicatrizes de uma cidade marcada pela desigualdade e pelo sangue de inocentes. No calor dos protestos, uma pergunta ecoa: até quando o combate ao crime será sinônimo de guerra à população?

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)