# Mete Marcha: Mulheres Negras Ocupam Brasília em Mobilização Histórica por Reparação e Bem Viver
Na Bahia, a expressão “meter dança” significa se jogar na dança, trata-se de um convite ao movimento. Foi tomando emprestado esse termo que a 2ª Marcha das Mulheres Negras, realizada em Brasília nesta terça-feira (25 de novembro), fez um chamamento para que as participantes vindas de todas as partes do Brasil e de outros países “metessem marcha”.
A canção tema do evento, “Mete Marcha Negona Rumo ao Infinito”, composta e interpretada pela cantora e compositora baiana Larissa Luz, embalou o canto coletivo de uma multidão de quase meio milhão de mulheres negras, muitas delas artistas que, assim como a marcha que cresceu e se fortaleceu desde sua última edição em 2015, também floresceram nos últimos dez anos.
Na Esplanada dos Ministérios, a mobilização articulada pelo Comitê Nacional da Marcha reivindica políticas de reparação econômica, trabalho e renda, dignidade e bem viver. O movimento apresentou um documento com sete eixos pensados pelas próprias mulheres negras para mudar a realidade: reparação econômica, trabalho e renda, política macroeconômica, dignidade, investimento público, investimento privado e economia internacional. A comitiva planeja entregar o documento no Ministério da Fazenda e iniciar uma grande articulação política para que essas políticas saiam do papel.
Vindas do Norte, do Nordeste, do Sudeste, do Sul e do Centro-Oeste, as participantes trouxeram consigo histórias de luta e resistência. Entre elas estava dona Maria dos Santos Soares, a dona Santinha, uma mineira morando no Rio de Janeiro, filha caçula de uma família de 14 irmãos, que há muitos anos luta com os punhos levantados marchando contra as desigualdades. Aide Maria Lima de Jesus, de 67 anos, viajou do Paraná exclusivamente para participar da marcha. “É uma sensação única ver as mulheres pretas se organizando, saírem dos seus territórios e virem aqui lutar por reparação, por bem viver”, disse ela, que retornava à marcha pela segunda vez, exaltando a força da união das mulheres presentes como resistência coletiva contra o racismo estrutural.
As dez years que separam a primeira marcha de 2015 desta segunda edição também marcaram a trajetória de muitas artistas negras que participaram do evento. Flora Egécia era uma jovem diretora quando colocou no mundo seu primeiro filme, o curta-metragem documentário “Das raízes às Pontas”, que aborda o resgate das raízes negras a partir dos cabelos crespos. Um dia depois do lançamento do filme, ela se juntou à multidão que tomou conta do Eixo Monumental em 2015. “Nesta época eu lembro que tinham várias diretoras negras em ascensão como eu, no mesmo período que eu, e hoje em dia eu vejo estas mulheres fazendo longas-metragens, tomando conta do mundo. Eu estava começando e elas também começando, e eu hoje as vejo voando muito longe”, relembrou Flora, que marchou novamente nesta terça-feira ao lado da mãe, a professora da Universidade de Brasília Dione Oliveira Moura. Em 2022, Flora lançou juntamente com Bianca Novais o documentário “Me Farei Ouvir”, que aborda os gargalos e labirintos que a democracia brasileira produz para dificultar o acesso de mulheres à política institucional.
Ao longo da marcha que coloriu a Esplanada dos Ministérios, era possível ver rodas de capoeira, alas de mulheres sambistas, bailarinas e percussionistas. O tambor, poderoso símbolo de herança e ancestralidade afro-brasileira, era o elemento em comum das batuqueiras brasileiras e das 45 mulheres uruguaias que tocavam o Candombe, ritmo afro-uruguaio que foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Ishina Pena Branca, dançarina e percussionista, carregava orgulhosamente seu xequerê na marcha e explicou a importância da arte na sua afirmação como mulher negra: “A música me conecta com meu corpo. Todas as vezes que eu canto, que eu toco, eu sinto o coração de África, é como se eu sentisse o vibrar do coração dos meus ancestrais”.
Representantes do movimento também dialogaram com autoridades sobre suas demandas. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirmou que a luta é pela reparação, pela igualdade racial e de gênero, ressaltando que mais de 110 milhões de mulheres e meninas vivem hoje no Brasil. “Não podemos admitir nenhum tipo de transfobia, nem desrespeito à nossa diversidade. Queremos dialogar e construir, em conjunto, políticas públicas para as mulheres negras desse país, que são maioria”, completou. Já às 19h30, representantes da Marcha tiveram audiência com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, apresentando demandas relacionadas, sobretudo, ao enfrentamento da atual política de segurança pública no Brasil.
Após a marcha, a programação seguiu na área externa do Museu Nacional, onde um show gratuito encerrou o dia de mobilização. No palco, Célia Sampaio & Núbia, Ebony, Larissa Luz, Luana Hansen e Prethais apresentaram suas artes. Naiara Leite, representante do comitê nacional da Marcha das Mulheres Negras, ressaltou a importância da arte na luta: “Nossa forma de fazer luta é também com arte, isso tem a ver com a nossa origem, nossa forma de fazer denúncia a partir de outras estratégias e outras ferramentas. A marcha segue até o palco. A música é um espaço de acolher, de falar de amor, de se fortalecer, e falar de resistência”.
A cantora Prethais se emocionou ao lembrar que o pontapé de sua carreira se deu depois da 1ª Marcha das Mulheres Negras. “Eu não imaginava que o que eu vivi com 17 anos, eu voltaria dez anos depois e faria parte da marcha no palco. Em 2015, eu tinha acabado de chegar da Bahia para morar no DF, em um contexto de muita solidão, de busca pelo bem-viver, que é o que a gente está reivindicando aqui hoje. Eu não sabia quem eu era e esse movimento de mulheres negras me deu caminho. Sou muito feliz que estas mulheres me colocaram aqui hoje. A Marcha me fez reconhecer como mulher quilombola, remanescente quilombola de Xique-Xique (BA), como mulher negra que move o mundo”.
A mobilização reivindica direitos fundamentais como moradia, trabalho e segurança, além de reparações históricas pelos impactos da escravidão e ações que garantam uma vida digna para mulheres negras no Brasil e na diáspora. Valdecir Nascimento, do Comitê Nacional da Marcha, estava com a emoção quadruplicada nessa segunda edição, sobretudo ao ver o tamanho do evento, estimado em quase 500 mil mulheres. As representantes do movimento afirmam que enquanto for possível, todas as mulheres negras ocuparão as ruas em defesa de seus direitos, na construção de um mundo e um Brasil diferentes, onde seja possível habitar o planeta para além do capitalismo, do neoliberalismo e do racismo, apresentando uma proposta de bem viver que tem raízes nas resistências centenárias das mulheres negras.
