Mobilização para produzir vacina contra covid deixou legado para o SUS

No dia 8 de dezembro de 2020, menos de um ano após a primeira comunicação oficial sobre as infecções causadas pelo coronavírus, a britânica Margaret Keenan, de 90 anos, tornou-se a primeira pessoa vacinada contra a covid-19 no mundo fora dos ensaios clínicos. A aplicação ocorreu no Hospital Universitário de Coventry, na região central da Inglaterra, marcando o início da campanha de vacinação em massa no Reino Unido com o imunizante da Pfizer/BioNTech, o primeiro aprovado por uma agência regulatória ocidental.

Margaret, prestes a completar 91 anos, expressou sua emoção ao receber a dose às 6h31 no horário local. “Sinto-me muito privilegiada por ser a primeira pessoa vacinada contra a Covid-19. É o melhor presente de aniversário antecipado que eu poderia desejar, porque significa que posso finalmente esperar passar um tempo com minha família e amigos no Ano Novo, depois de estar sozinha na maior parte do ano”, declarou a nonagenária, sentada em uma cadeira e interagindo calmamente com a enfermeira sob os flashes de câmeras de televisão.

A rapidez no desenvolvimento da vacina, menos de 12 meses após o surgimento da pandemia, foi classificada como suspeita por disseminadores de desinformação, mas representou uma demonstração impressionante de mobilização global e do acúmulo científico acumulado ao longo de décadas. Rosane Cuber, diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e uma das responsáveis por trazer a vacina de Oxford/AstraZeneca ao Brasil, explica que as tecnologias usadas, como as de RNA mensageiro e vetor viral, já eram plataformas estabelecidas e testadas em outras situações. “Elas só passaram por uma adequação. Não surgiram do nada. Tem muito acúmulo de pesquisa, muito acúmulo de conhecimento que foi aproveitado para o desenvolvimento rápido de novas vacinas”, complementa a pesquisadora.

Durante a pandemia, Rosane atuava como vice-diretora de qualidade em Bio-Manguinhos, a unidade da Fiocruz dedicada à produção de vacinas, biofármacos e kits diagnósticos. O instituto negociou com a Universidade de Oxford e a AstraZeneca a partir de agosto de 2020, obtendo transferência de tecnologia. A primeira leva de dois milhões de doses prontas chegou ao Brasil em janeiro de 2021, logo após a aprovação emergencial pela Anvisa, com a aplicação iniciando no dia 23 do mesmo mês. Ao todo, Bio-Manguinhos entregou 190 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca ao Programa Nacional de Imunizações, alcançando produção 100% nacional a partir de fevereiro de 2022.

Esse esforço deixou um legado duradouro para o Sistema Único de Saúde (SUS), com adaptações de infraestrutura, apoio da sociedade civil para aquisição de equipamentos e acompanhamento rigoroso da Anvisa, que reforçou a segurança do processo. Hoje, o instituto avança em novas terapias baseadas na mesma plataforma de vetor viral, como tratamentos para doenças crônicas, com estudos clínicos autorizados e potencial para reduzir custos significativos ao SUS.

Fonte: Agência Brasil – Matéria Original (Clique para ler)

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